A crise em Mendoza
Sim, o momento é delicado no principal polo produtor de vinhos da Argentina
Nenhum momento é bom em época de crise, principalmente quando se está subindo ou no meio de uma arrancada especial, com vistas a uma posição mundial de destaque. Esta recente crise global, provavelmente provocada por quem não costuma toomar vinho, além de “ser loiro e ter olhos azuis”, pegou o vinho argentino em plena ascensão no mercado.
No caso do Brasil, a aceitação do vinho argentino é inconteste. A cada dia bebemos mais rótulos produzidos pelos nossos vizinhos. De lá chegam regularmente garrafas que compramos por 6,50 reais até 500 reais. As opções de marca já passaram de mil faz tempo. Agora que os vinhos argentinos estavam indo muito bem nos Estados Unidos e na Inglaterra (mesmo com a cizânia nas Malvinas), vem a crise bater-lhes à porta.
Em recente visita a Mendoza para buscar novos vinhos para venda no Brasil, ouvi todo tipo de reclamações contra a inflação real que se abate sobre a Argentina, e que o goverrno federal jura que é “fantasma”. Mas a realidade mostra outra coisa. A cada mês, o proodutor de vinhos argentino enfrenta aumentos no preço das garrafas, das rolhas, das caixas de papelão, dos rótulos etc. É impossível fazer grandes estoques, pois são as encomendas que geram e movimentam o mercado. E os pedidos internacionais caíram muito.
Alguns produtores falam em inflação de 25% no ano de 2008 – assim ninguém aguenta! O que era o mais barato, o vinho em si, também ficou caro, afinal o produtor de uvas não está imune à inflação e aos constantes aumentos de preço. Em dois anos, os fretes de contêineres de Mendoza para Buenos Aires cresceram 400%!
Em meio a essa situação, os amantes do vinho só estão tranquilos em relação à qualidaade. Isso, sim, só melhora. Estive em 20 bodegas e pude provar 148 vinhos. Os Malbec continuam a reinar. Mesmo os mais simples, chamados “de primeiro preço”, apresentaram excelente relação custo-benefício. Já os caldos mais elaborados, com médios e longos estágios em carvalho, revelaram-se uma agradável surpresa. Vinhos robustos, com muita elegância, de longevidade garantida. Uma legião de jovens enólogos marca presença na elaboraação desses vinhos. Nem sempre a quantidade é importante, mas a qualidade, finalmente, é a meta a ser atingida.
Embora o cenário seja escuro (a crise tem feito estragos), é louvável o otimismo do vitivinicultor argentino. Todos que encontrei acreditam que o futuro será melhor e que os vinhos argentinos deverão conquistar mais espaço pelo mundo afora. O Brasil continua a ser a “menina dos olhos” dos produtores de lá. Agora, é só rezar para que ambos os governos (do Brasil e da Argentina) não ponham tudo a perder, porque a primeira coisa que os tecnocratas de Brasília e de Buenos Aires sabem fazer nesses momentos é aumentar os impostos. A esses “sábios da economia” dou só um conselho: bebam mais vinho. Assim vocês errarão menos.
*Texto publicado na revista Prazeres da Mesa em maio de 2009, nº70
Saudações Vinícolas!
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