A madeira é um jardim
Localizada no Atlântico, a 800 km de Portugal continental e 600 km do litoral oeste do Marrocos, a Ilha da Madeira, com justiça chamada de “A Pérola do Atlântico”, é um paraíso em todos os sentidos.
Paisagem exuberante, cercada de um mar azul, quase turquesa, com dezenas de vilas e lugarejos encravados nas montanhas, que fazem lembrar a armação de um presépio napolitano, a Ilha da Madeira é hoje um dos destinos preferidos pelos turistas de todo o mundo, que buscam paz, tranqüilidade, contato com a arte e natureza, gastronomia -e para se deixar render pelos encantos do não menos famoso Vinho Madeira.
Eternizado pela história, em que, como ator principal, brindou a liberdade nos Estados Unidos, acalentou a morte de um nobre inglês e ainda foi imortalizado em uma obra de Shakespeare, o Vinho Madeira pode parecer ter passado de moda, mas está mais vivo do que nunca.
A ilha descoberta no século 15 por D. Henrique, o navegador, foi também o berço da cana de açúcar, trazida para o nordeste do Brasil e fez a riqueza de portugueses e holandeses.
Foi D. Henrique quem introduziu o plantio da uva Malvasia na ilha. Graças ao seu privilegiado clima mediterrâneo, essa cepa logo mostrou suas virtudes. No princípio, os vinhos produzidos na ilha eram maduros comuns, mas após perceberem que as longas viagens, nas antigas caravelas, prejudicavam suas qualidades primárias, resolveu-se adicionar uma porcentagem de aguardente de cana, para dar-lhes resistência. Ao mesmo tempo, ao adicionar aguardente durante a fermentação, parte dos açúcares foram preservados, criando-se um agradável vinho doce. Hoje, a aguardente adicionada é vínica e não mais de cana-de-açúcar.
O grande caráter aromático e de palato é ao caramelo, que lembra as balas toffee, oriundo de um processo de estufagem do vinho. Esse processo consiste em aquecer o vinho em grandes tonéis ou outros recipientes, à temperatura de 40 graus centígrados por período de três a seis meses. Também, pode-se armazenar o vinho no sótão de casas que tenham telhados de zinco, ambiente de temperaturas elevadas graças ao intenso calor correntemente registrado na ilha.
Antigamente, esses vinhos eram embarcados em caravelas que se dirigiam aos portos da índia, onde o comércio com Portugal era intenso. Notou-se que algumas pipas que voltavam, por não terem encontrado compradores, tinham qualidade superior à que tinham quando partiam para a venda. Foram muitos anos para os portugueses descobrirem que a corrente marítima oceânica quente da costa oeste da África provocava a estufagem do vinho, uma espécie de “cozimento”. Nasceu assim o “Madeira Toma-Viagem”, cujo preço era bem superior ao Madeira que não viajava; os ingleses pagavam alto por esse vinho.
Quatro uvas brancas e uma tinta são as varietais que dão origem ao Vinho Madeira. Quando o nome da uva é citado na garrafa, o vinho deve ter no mínimo 85% da casta em sua composição.
As brancas Boal, Malvasia (conhecida também como Malmsey), Verdelho e Sercial resultam em um vinho de potência média, grande potência de aromas doces e alto grau de doçura. Vinhos meio secos, ricos em corpo, grandes companheiros dos tradicionais acepipes lusitanos.
A uva tinta Negra Mole dá origem ao Vinho Madeira comum ou corrente, mas quando bem casada com uma das varietais brancas acima citadas origina vinhos únicos.
Não é incomum nos depararmos com Madeiras muito velhos. No Brasil, entre os amantes do vinho, ficou famoso um Madeira Terrantez 1863 (uva hoje em extinção na ilha) de que o enófilo de saudosa memória Pedro Kalim Cury conseguiu algumas garrafas, juntamente com o não menos apaixonado por vinho Paulo Ayres, ambos pensionistas de carteirinha de Yan de Almeida Prado. Sobre esse vinho, Sérgio de Paula Santos já cantou loas e hinos.
Na década de 80, um madeirense orgulhoso de sua terra, aproveitando-se de ser dono de uma rede de supermercados, importou por anos e anos o Madeira Barbeito nas versões Boal, Verdelho, Malvasia, Sercial e um Madeira dez anos.
Manuel da Silva Sé, proprietário da rede Sé de Supermercados, exibia essa coleção de Madeiras em todas as suas lojas -e ainda tinha um detalhe curioso: vendia tudo!
Hoje, somente duas importadoras trazem Madeira para o Brasil: a Mistral, com a marca Blandy’s e a Porto a Porto/Casa Flora, com o Justino’s. Sobre o Justino’s, cabe citar que um coronel reformado do exército português, que trabalhou na África por muitos anos, está à frente da empresa e tem sido a maior personalidade do Vinho Madeira, verdadeiro embaixador da ilha e de seu vinho por todo o mundo. Incansável batalhador e grande defensor desse vinho, o carismático coronel Costa Campos sempre tem um vinho novo ou um Madeira antigo a apresentar.
Corre à boca pequena pelo mundo que o Vinho Madeira encontrou na figura do coronel o seu novo paladino.
Não posso encerrar sem citar o Malvasia 1850 que minha tia Maria Julia de Mendonça ofereceu-me para acompanhar o tradicional Bolo de Mel da Madeira em novembro de 1982 em sua casa, no Funchal. Hoje sinto o gosto de saudade registrado na memória.
Artigo publicado na revista Vinho Magazine – nº63, ano 7, julho/2005
Saudações Vinícolas!
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