A mesa e a diplomacia brasileira
O tema “Como nosso Serviço Diploomático recebeu e recebe seus convidados” sempre me interessou. O Itamaraty sempre foi uma grande escola de fidalguia e bom gosto, embora suas verbas para o assunto mesa, até hoje, sejam tremendamente restrita, o pessoaI da Divisão do Cerimonial do Itamaraty faz “das tripas o coração”!
Findo o II Império em 15 de Novembro de 1889, o Brasil logo agiu politicamente para se expor ao mundo como uma república moderna, que queria ocupar seu lugar no restrito mundo das nações mais civilizadas. Coube ao nosso Ministério das Relações Exteriores, patrocinar e vender essa imagem ao mundo. De uma política espartana e até de pão-duro com relação às festas no tempo do Império, passamos a receber delegações e visitas ilustres mais amiúde.
O velho e sempre charmoso palácio cor-de-rosa, da antiga Rua Larga de São Joaquim, hoje Avenida Marechal Floriano, no Rio de Janeiro, RJ, passou a ser a sede de nosso serviço diplomático a partir do ano de 1898. O teste de fogo do palácio foi a visita do presidente da Argentina general Julio Roca, em agosto de 1899, a primeira de um chefe de Estado à jovem república brasileira.
Foi com o grande barão do Rio Branco que, finalmente, nossa diplomacia deu sua cara ao mundo e iniciou com galhardia a arte de receber. O serviço do cerimonial, assim como hoje, era o responsável por preparar o sempre mais esperado em uma vista: o banquete. Pelo trabalho que dá montar um banquete de Estado ou oficial, concordo plenamente com o mordomo do cardeal degli Aldizi, em meados do Século XVII, Giacomo Colorsi, que afirmou: “O homem que prepara um banquete tem tanto a fazer quanto aquele que comanda um Exército”! O barão do Rio Branco, que ocupou o Palácio do Itamaaraty de 1902 a 1912, ordenou e executou uma reforma interna no palácio para deixá-lo à altura das festas e das recepções que ali viriam a acontecer.
O barão encomendou na Europa, cortinas, tapetes, móveis, louças, pratarias, cristais e elementos de decoração que até hoje são o orgulho da casa, agora, museu diplomático. O Itamaraty recebia quase diariamente delegações de diplomatas estrangeiros, comandos de navios da Marinha de Guerra de todo o mundo que aportavam no Rio de Janeiro, autoridades eclesiásticas que vinham de Roma e transitavam pela América Latina, escritores e filósofos de todos os tipos de corrente de pensamento, além, é claro, de chefes de Estado e membros das casas reais da Europa.
Com antecedência, o Serviço do Cerimonial expedia os convites, contratava os fornecedores das comidas, porque o palácio nunca teve cozinha própria para a elaboração das refeições, cuidava da decoração, comprava os vinhos a ser servidos, escalava um batalhão de funcionários para trabalhar (houve jantar paara 32 pessoas em que trabalharam 36 pessoas, só para servir) e um dia antes do evento se ensaiava tudo, passo a passo, para que nada dessse errado. Uma gafe diplomática nesse setor era considerada um martírio para muitos anos de comentários maldosos. Dois dias antes do evento, começava o martírio de se correr atrás das confirmações ,afinal o mapa da mesa deveria ser montado, e ali estava o maior quebra-cabeça da diplomacia, a precedência deve ser obedecida à risca. As autoridades equivalentes devem ficar ao lado de um correlato, de igual patente ou cargo, ou próximas, nunca soltas em qualquer lugar da mesa.
Até hoje, para não se passar vergonha, existe a figura do “tapa-buraco”, geralmennte funcionários do próprio ministério se sentam à mesa, porque não é de bom tom ter lugares vagos na mesma. No velho ltamaraty, era comum um número de funcionários ter no seu gabinete de trabalho, bem arrumado, seu fraque, pois não daria tempo de ir em casa buscar o traje de gala, se o chefe o escalasse para participar do banquete.
Os menus, todos escritos em francês, eram ricos em detalhes, e os pratos ou frutas típicas brasileiras não escapavam dessa versão. Por exemplo, um peru à brasileira virava “dinde à la brésilienne”; a sobremesa era “bacury à la neige”. O primeiro cardeal da América Latina, d. Joaquim Arcoverde, foi recebido com um menu, que podemos chamar de “celestial”: crême Mazarin, dame de garoupa cardinal, suprême de boeuf Richelieu, bavaroise Leon XIII, mais diplomático, impossível!
Na trajetória do livro, podemos ver e sentir como o “glamour” dessas festas e recepções se alterou. Em nome do modernismo, o fraque, as condecorações e o smoking foram abolidos para os homens, e as mulheres não podem mais exibir seus longos vestidos e suas jóias. Hoje, o que vale é a diplomacia da economia ou da globalização, até o serviço à francesa foi eliminado, por questão de tempo. Hoje, o ltamaraty em Brasília recebe com “serviço de buffet”, não economizando na prataria, nas louças e nos cristais, mas agora para comer, deve-se pegar a fila!
As cartas de vinhos, formam um capítulo à parte no livro, sofreu profundas alterações ao longo dos anos, e acredito, para melhor. Substituímos os vinhos importados pelos nacionais, mas quando durante mais de um século servimos vinhos de fora, nunca decepcionamos. Hoje, todo o cardápio é nacional, comidas de norte a sul do Brasil passam pelos salões do Itamaraty de Brasília, e agradam muito, os príncipes das Astúrias Felipe e Letícia saborearam e gostaram de nossa feijoada; o príncipe herdeiro do Japão, Naruhito, provou uma bateria de sushis com peixes de Fernando de Noronha e da Bacia do Rio Paraná. O grande bobó de camarão é um habitué da casa e os quindins reinam absolutos.
O livro tem quase 300 fotos, que registram essa rica história de nossa cultura diplomática e é recheado de fatos e casos interessantes, como as comidas que servimos em nossa embaixada em Londres, o que comeu e bebeu Walt Disney, a descrição em detalhes dos vinhos servidos ao presidente Eisenhower, o que comeu o príncipe de Gales em São Paulo em 1934, alguns menus servidos no Copacabana Palace e no Jockey Club da Gávea, no Rio de Janeiro, além de revelar que o barão do Rio Branco incentivou Rui Barbosa a oferecer vários banquetes em Haia, para convencer as delegações estrangeiras presentes na Conferência da Paz a aceitar as posições do Brasil, receita que deu certo.
Foram dois anos e meio de muita pesquisa e de descobertas fantásticas, que só nos dão orgulho ao ver como o nosso velho e bom ltamaraty tratou no decorrer dos tempos e ainda trata a velha e boa arte de receber, sem perder o jeito descontraído de ser do povo brasileiro.
*Texto publicado na revista Prazeres da Mesa em dezembro/janeiro de 2009, nº66
Saudações Vinícolas!
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