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Abaixo ao selo fiscal

2 março 2009 | por Carlos Cabral | 6 Comentários

Mais um entulho arbitrário está em transito pelo setor do vinho. Os produtores nacionais de vinho estão sugerindo a criação de um imposto adicional sobre todos os vinhos importados pelo Brasil, com a criação de um selo (idêntico ao que existe para os destilados importados e cigarros nacionais) onde o importador pagaria uma taxa de R$ 5,00 por garrafa, e que seria colocado na garrafa pelo produtor do vinho em seu país de origem.

Como se já não bastasse a gangorra do câmbio, e os inúmeros impostos que caem sobre os vinhos importados, excluindo-se os do Mercosul, este imposto, segundo os “gênios” que o defendem, fariam o consumidor migrar do vinho importado para o vinho nacional.

Ledo engano, além de estúpida convicção. Alguns produtores brasileiros ainda julgam que o Brasil é um imenso cartório, e antes de serem competitivos e criadores buscam na proteção do Estado uma desculpa para suas incompetências.

Quando há mais de 10 anos atrás, problemas de má gestão colocaram a maior produtora de vinhos do Brasil, a Cooperativa Vinícola Aurora, em situação delicada, quase falimentar, vozes de todo o Brasil se levantaram e pediram socorro para esta emblemática empresa, que continua representando cerca de 50% da produção nacional de vinhos, além de ter, sob sua responsabilidade a sobrevivência de mais de 1.500 famílias cooperadas.

Aquela situação era distinta, tratava-se de um socorro pelo bem do vinho brasileiro. Talvez naquele momento um pouco de ação protecionista resolvesse a questão temporariamente. O tempo mostrou que uma boa administração e muita força de vontade foram os verdadeiros responsáveis em colocar a Aurora nos trilhos.

A Aurora, por ser a maior produtora de vinhos do Brasil, tem lá seu grande peso neste mercado e ainda é exemplo de qualidade para muita gente do ramo, pois seu corpo de enólogos faz verdadeiros milagres com seus empenhos pessoais e lutam pela modernização em suas instalações.

Não posso crer que pioneiros, que de simples plantadores de uvas transformaram-se em criadores de vinhos como os Pizzatos, os Valdugas, os Miolos, os Saltons, os Marco Luigi, a Dom Giovanni, os Marson, a Dom Laurindo, Dom Cândido e tantos outros, possam estar de acordo com esta aberração.

Este pessoal enxergou o momento brilhante que vive o vinho no Brasil e foi à luta. Criaram suas marcas, apostaram na qualidade de seus vinhos, chegaram até a se endividar, mas ergueram uma indústria sem protecionismo, onde a qualidade fala mais alto.

O Brasil vive querendo ser tratado como país de primeiro mundo, quer exportar de tudo, inclusive vinhos brasileiros que já fazem a alegria de povos de mais de 30 países de todo o mundo. O Projeto Setorial Integrado Wines From Brazil, só para citar um exemplo, conseguiu em 2008 duplicar o volume de exportação de vinhos e espumantes brasileiros. Os negócios chegaram aos U$D 4,68 milhões, ou seja, 99,4% maior que as vendas do ano anterior. Será que o pessoal que quer o tal selo pensou que este belo trabalho da WFB pode ir a pique com esta medida discriminatória?

E agora querem dar esse passo para trás, imaginando que nossos consumidores aceitarão isto de braços cruzados. Lembro-me que em épocas mais tenebrosas, antes de 1991 quando as importações foram liberadas, grupos de empresários, endinheirados, saíam aos bandos rumo a Europa em jatos particulares e em fins de semana prolongados, só para degustarem vinhos em Bordeaux ou Borgonha. Alguns chegavam a gastar 50 mil dólares em vinhos nestes finais de semana e sempre um bom político de Brasília ia junto, para dar a benção final.

Temos que deixar a hipocrisia de lado e parar de querer mandar na vida dos outros. Cada cidadão brasileiro que trabalha, tem o direito de beber o que quer, desde que pague com o seu dinheiro, e pronto.

Vamos tratar de melhorar cada vez mais o vinho brasileiro, vamos estimular o consumo de nossos espumantes, que já é o segundo melhor do mundo. Vamos pedir ao governo que abaixe o imposto de nossos espumantes, que fiscalize as guias dos tais Proseccos que entram no Brasil se dizendo “vinhos frisantes” só para pagarem menos impostos, vamos pedir redução de impostos para aqueles vinicultores que querem converter seus vinhedos de antigos parreirais para espaldeiras, vamos colocar o suco de uva nacional, que é o melhor do mundo, na merenda escolar de nossos filhos e netos. Estas sim seriam atitudes de pioneiros com visão, não esta de querer aumentar impostos que visam tentar mandar no gosto das pessoas.

Vamos evoluir, chega de retrocesso!

6 Comentários »

  • André disse:

    Bravo!!!

  • Alex Salles disse:

    Perfeito. O consumidor brasileiro não pode ser escravo de péssimas administrações. É nossa obrigação protestar, pela justiça e o bom senso no enomercado. “Só é escravo quem se deixa escravizar”.

  • Orides disse:

    Cabral,

    Infelizmente estão administrando este país como se fosse um grande “sindicato”, como sempre, protegendo os companheiros incompetentes.

  • J.CARLOS disse:

    MUITAS DESSAS PESSOAS,PREFEREM A DESONESTIDADE,A MALANDRAGEM,A MENTIRA,A TER QUE USAR DE EMPENHO,CRIATIVIDADE COOPERAÇÃO.PENSAM NO HOJE, MAIS SE ESQUECEM DO AMANHÃ.
    AS VINICOLAS BRASILEIRAS,QUE HOJE VEM GANHANDO RECONHECIMENTO PELA QUALIDADE DE SEUS VINHOS,DEVEM PENSAR BEM, ANTES DE COLABORAR COM ESTA “SUJEIRA FISCAL E FINANCEIRA”.

    ABRAÇOS

    J CARLOS

  • Joao Henrique disse:

    Cabral,
    Passado pouco mais de um ano desse seu texto, o tal selo foi, ao que parece, recentemente aprovado pelo nosso ministro da fazenda. Um pouco diferente das propostas iniciais, mas foi. E sob a alegação de todos os envolvidos, de que nao se trata de aumento de impostos e que o custo para o consumidor final será zero. Ou seja, sob o discurso de que não haverá aumento nos preços. O que, na minha opiniao, nao é verdade. Li outro dia uma análise de um importador levantando algumas questoes práticas sobre essa implantação do selo. Se a selagem for feita fora do país, e por produtores menores (os melhores) estamos falando em trabalho manual e hora/trabalho paga em dolar ou euro. Se for feita no Brasil, terá que ser realizada ainda no porto, enqto os vinhos ainda estiverem no container refrigerado. Qto tempo se leva para selar as milhares de garrafas em um container? Multiple isso pelo custo diário, tbem em dolar, do aluguel desses containers. Em amobs os casos tratam-se de custos adcionais que com certeza serão repassados para nós. Na sua opiniao, o que fazer? Já se fala aqui na net de UM BOICOTE AOS VINHOS NACIONAIS. Tendo a achar que é a solução.
    Abs

  • Carlos Cabral (author) disse:

    De fato tenho lutado muito contra este novo abuso, que tem a aprovação dos produtores do Brasil, que em vez de primarem pela competência, forçam a barra pelos impostos, selos etc…

    Falei que se o selo sair mesmo vou boicotar o vinho Nacional, por mais patriota que eu seja. Devemos dar uma lição aos produtores nacionais e fazê-los entender que mercado se ganha por competência e não por favor!!

    Estou nessa luta! Vamos em frente!

    Abraços,

    Carlos Cabral

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