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Agradáveis surpresas no Alentejo

26 outubro 2009 | por Carlos Cabral | 2 Comentários

Liderando um grupo de amigos enófilos apaixonados por vinhos e comidas, estive recentemente por 8 dias em Terras Alentejanas, revendo amigos, provando novos vinhos, e saboreando a fantástica gastronomia castiça daquelas bandas de Portugal, enfim, fazendo um bom e fantástico “regime de engorda”.

Começamos visitando o iniciador de tudo, a Herdade do Esporão em Reguengos de Monsaraz, onde um espetacular vinhedo de 600 ha cria um “mar de vinhas”, desenhando no horizonte dos suaves campos uma paisagem para Van Gogh pintar. O jovem enólogo Luis nos acompanhou na visita, e na hora do almoço fomos estivemos com o enólogo chefe do Esporão, o australiano já aclimatado ao Alentejo, David Baverstock.

Um almoço suculento nos aguardava. Iniciamos com uma degustação de 4 azeites produzidos na propriedade, todos com sabores únicos e muito delicados, seguiu-se uma Salada de Perdiz de Escabeche, acompanhada pelo Vinho da Defesa Rosé 2008, um vinho com aromas marcantes e sabor delicado. O famoso prato da casa, considerado o “Ex Libres” do restaurante Galeria do Esporão, o Bacalhau à Esporão foi então servido com o suculento vinho Esporão Reserva Branco 2008, o que levou a todos a sentenciarem que “aquele vinho nasceu para acompanhar aquele bacalhau!”. Como prato principal uma Charlotte de Aves que foi acompanhado pelo Esporão Private Selection Tinto 2005, na sobremesa, sorvetes diversos.


Como sempre pudemos observar a seriedade com a qual o Esporão elabora seus vinhos. O entusiasmo daquela gente é contagiante e seus vinhos a cada dia apresentam um item a mais de qualidade.

No dia seguinte realizamos um programa que como dizem os franceses, foi um “ tour de force”, Mouchão pela manhã, almoço em Évora na Taberna Típica Quarta-Feira, Fundação Eugênio de Almeida e jantar no O Fialho!

Passemos a descrição desse dia inesquecível:
Na Herdade do Mouchão nos aguardava o simpático enólogo Paulo Laureano, com seu sorriso imbatível, que logo nos foi mostrar a jóia da casa, o vinhedo cultivado com a casta Alicante Bouschet, enquanto uma equipe de homens desembarcava e colocava em seu respectivo lugar uma imensa pipa de carvalho francês novinha com capacidade de 5.000 litros, que custou 16.000,00 euros!

Depois fomos visitar as modestas, mas perfeitas instalações da vinícola, construídas em 1901, e lá encontramos diversos lagares repletos de mostos de uvas recém colhidas, nos quais 4 homens pisavam com todo cuidado, fazendo baixar a manta que ficava em cima. Logo passamos para a sala de provas, onde o magnífico pão alentejano, acompanhando alguns embutidos de porco preto nos aguardava, para acompanhar os vinhos, já desarrolhados, que Paulo Laureano nos reservou.

Começamos com Dom Rafael 2007, depois Ponte das Canas 2006, vinhos jovens e bem estruturados. Passamos ao Mouchão 2005, uma jóia que abriu caminho para um “porta jóias” o Mouchão 1984, um vinho que embora tenha 25 anos, parece que foi elaborado ontem tamanha a complexidade de aromas vegetais e de eucalipto que este vinho apresentou na prova. A julgar pelo que bebemos, aí está um vinho que resistirá bem mais 25 anos!

No “Gran finale” dos vinhos tintos degustamos o Mouchão 3-4 da safra 2005, este sim um de futuro promissor e grande longevidade. Sobre estes vinhos Mouchão 3-4 , já escrevi, e torno a afirmar serem o 2° melhor vinho de Portugal que já provei até hoje, só ficando atrás de um Barca Velha 1966.
Aqui firma-se a prova irrefutável da soberania da Alicante Bouschet no Alentejo, que para mim já deixou há muito tempo de ser uma casta francesa, hoje é uma casta típica alentejana.

Imaginando que tudo tinha acabado, vem o Paulo Laureano com um Mouchão Licoroso, de aromas delicados e um álcool imperceptível. Como amante do Vinho do Porto, encontrei muita semelhança entre esse vinho e o Porto, falei de minha admiração o que levou o Paulo Laureano a pedir que eu aguardasse um pouco. Retirou-se e voltou com outro cálice de um outro vinho licoroso do Mouchão, que para a minha surpresa tratava-se de um licoroso produzido no Mouchão em 1929! Surpresa geral, um licor, uma “pomada” como se diz em Portugal para um vinho que desce sedoso.

Durante nossa visita o proprietário do Mouchão, o Sr. Lain Richardson, como sempre muito simpático, apareceu para nos dar um abraço e falar mais uma vez de seu otimismo com os vinhos que produz.

Conforme o combinado, retornamos a Évora para almoçarmos a convite do Paulo Laureano na Taberna Típica Quarta-Feira e provarmos os seus vinhos, da Paulo Laureano Vinus. Com a coleção de acepipes que o simpático Zé Dias colocou a mesa, iniciamos a degustação com um Branco Paulo Laureano Antão Vaz, muito aromático, de cor amarelo cítrico e refrescante. Logo veio a mesa uma deliciosa sopa de cação, e este Antão Vaz portou-se muito bem com este prato.

Seguiu-se um Paulo Laureano Reserva Tinto 2005, um bem elaborado vinho a partir das castas Aragones, Trincadeira e Alicante Bouschet, sendo que esta última casta dá ao vinho os tradicionais aromas vegetais pujantes. Então um porco alentejano assado veio à mesa, e logo no meio desta suculenta refeição, uma novidade nos foi servida, um espetacular vinho chamado Tinta Grossa 2006, que segundo o Paulo Laureano deve ser um clone da Trincadeira, o vinho tem 14,5% de álcool e fermentou lentamente com cascas e engaços e depois estagiou por 12 meses em carvalho francês Seguin Moreau novo. Uma verdadeira obra de arte, um vinho diferente, robusto, com raça, vinho para muitos anos de guarda, e que ainda não chegou ao Brasil.

Após este almoço frugal, fomos visitar a Fundação Eugênio de Almeida, tradicional Casa Vinícola Alentejana que já conquistou o mundo com seus vinhos muitos diplomas e respeito internacional, desde o nascimento de seus primeiros vinhos, todos vindos ao mundo pelas mãos do grande mestre alentejano Prof. Colaço do Rosário e o seu escudeiro e confrade, o Engenheiro Pimenta.

Hoje a Fundação Eugênio de Almeida tem a mais moderna vinícola da Europa, suas instalações, totalmente automatizadas são uma verdadeira Disneylândia para qualquer enólogo do mundo. Um jovem engenheiro agrônomo e enólogo chamado Duarte nos guiou por esta visita e deixou a surpresa maior para a noite, quando fomos jantar no O Fialho, em Évora, onde alguns rótulos da Fundação nos foram ofertados para degustação.
O Fialho já deixou há muito tempo de ser um Restaurante, hoje é uma Instituição Nacional, digna de respeito no mundo todo, e o título de “O Melhor Restaurante de Portugal” não é nenhum exagero, é uma constatação.
Logo a entrada do restaurante, Gabriel Fialho nos recebe com o seu já emblemático e tradicional sorriso, aquele que nos ajuda a abrir o apetite imediatamente. De início uma farta mesa com os tradicionais enchidos e comidinhas alentejanas nos foi servido, destacando-se o Perdiz em Escabeche, os fantásticos cogumelos, as ovas de peixe, o bolinho de bacalhau, o polvo, o presunto fatiado de porco preto alentejano entre outros, tudo isso só de entrada, que para nós já se tratava de uma refeição completa.

Acompanhando tudo isso nos foi servido um Vinho Branco Foral de Évora e em seguida um Pera Manca Branco 2007, magnífico.

Com as carnes, borrego e porco alentejano, que não foram poucas, veio à mesa, servidos com muita calma, um Cartuxa Reserva 2006 e o Grande Pera Manca tinto 2007.

No dia seguinte, uma ida a Aldeia de Montoito, para visitar o simpático e agradável casal Joaquim Madeira e Graça, proprietários da Vinícola Casa de Sabicos. Uma pequena, mas bem montada adega consegue elaborar vinhos de alta qualidade, com todas as características castiças dos vinhos alentejanos. Joaquim Madeira é um mestre e apaixonado em sua arte de fazer bons vinhos, uma homenagem à bisavó dele e de sua mulher Graça, deu origem ao nome da vinícola, pois como são primos, ambos têm muitas histórias a contar da “Vó Sabica”, mulher empreendedora que sempre esteve à frente da família nos negócios agrícolas.

Uma rica mesa de almoço nos aguardava, onde pudemos degustar uma Sopa de Tomates à moda do Alentejo, um Arroz de Pato, inesquecíve!, Favinhas com entre coto de Porco, e Pernil de Porco Preto com redução em vinho da Casa.

Os vinhos bem acompanharam esta maravilha de almoço. Começamos com um Graça Santana Ramalho Rosé, vinho bem estruturado e com corpo marcante, lembrou os roses da Côte Du Rhône. Seguimos com um branco de raça, um Joaquim Madeira Antão Vaz com Arinto e 5% de Chardonnay, um vinho de cor inebriante e aromas florais magníficos. Passamos ao Montoito 2007, um tinto leve que homenageia a localidade onde é produzido, aí seguimos para os Tops Wines da Casa, o Casa de Sabicos DOC 2005, um grande vinho elaborado a partir de um harmonioso corte de Trincadeira, Aragonês, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet, que mais uma vez fez preservar os aromas vegetais deste vinho. E ao Gran Finale, o Avó Sabica 2004, um tinto para muitos anos, pois sua estrutura de taninos e corpo redondo revelam ser um vinho de longevidade, como foi a vida da Vó Sabica.

No dia seguinte seguimos viagem a Herdade dos Grous, um grande projeto de origem alemã, mas que tem na sua condução o talentoso e irrequieto enólogo Luis Duarte. As instalações da vinícola são uma obra de arte no meio de uma imensidão de campo, que abriga um ambicioso projeto de Enoturismo rural, que é um sucesso. Por dispor de uma imensa propriedade onde não só o vinho é a estrela, os campos em torno da Herdade dos Grous receberam uma grande quantidade de cepas de diversas origens, além das tradicionais alentejanas.

Foi ao almoço, por sinal, 5 estrelas, que o Luis Duarte deu-nos a provar as suas obras de arte. Um creme de tomate com tosta de pão alentejano e ovos escalfados abriu a comilança, este prato foi acompanhado pelo vinho Herdade dos Grous 2008, um branco de Antão Vaz, Arinto e Roupeiro, o vinho tem uma cor amarelo intenso que faz lembrar idade avançada, mas não é, trata-se de um vinho jovem e muito fresco.

Logo em seguida provamos um bacalhau com espinafres salteados com purê de grãos e alho assado, tudo na medida certa e nenhum sabor se sobrepondo ao outro, o que é difícil quando se tem a presença do alho. Aqui um Herdade dos Grous tinto 2007, vinho de base da Casa foi suficiente para acompanhar esta iguaria. O vinho apresenta-se já com os taninos macios e arredondados e um bom final de boca. Este vinho tem uma particularidade, têm em sua composição duas cepas não muito comuns no Alentejo, mesclando-se com a Aragonês e a Alicante Bouschet, Luis introduziu a Syrah e a Touriga Nacional, esta última a emblemática cepa portuguesa de maior prestígio. O casamento deu certo.

Passamos para Burras confitadas (pão alentejano no fundo do prato) com batatas e courgette (abobrinha) grelhados e cogumelos salteados, este prato era rico em aromas vegetais marcantes, e foi acompanhado por uma jóia, um Herdade dos Grous Tinto Reserva 2007, oriundo das castas Tinta Miúda, Alicante Bouschet e Touriga Nacional, um vinho rico em cor e muito brilhante, fatos que já agradam aos olhos, aromas de frutas vermelhas maduras marcantes e uma longa persistência na boca.

Para acompanhar os Doces Conventuais Portugueses, e que não são poucos, Luis Duarte apresentou uma surpresa de tirar o fôlego. Serviu à todos o Herdade dos Grous Late Harvest 2008!

Como se obter um Late Harvest em pleno Alentejo, onde as temperaturas são escaldantes? E este vinho foi obtido não por concentração de açúcar mas sim pela obtenção de Botrytis Cinerea, a chamada “podridão nobre” que só ocorre em regiões frias.

Luis explicou que tem cultivado 1,5 ha de Petit Manseng, uma cepa típica do Juransson ( França), ele inoculou a Botrytis Cinerea nas uvas, e duas vezes por dia regava os vinhedos com água gelada para provocar uma umidade, nada comum no Alentejo. E ali estava o resultado, um vinho amarelo ouro, com aromas de damascos e mel, uma untuosidade espetacular e um retrogosto na boca muito, mas muito longo. Um milagre da natureza e uma ousadia do enólogo, que colocou a tecnologia a seu favor. A produção desta safra foi pequena, somente 1.500 garrafas, mas só pelo que provamos, já podemos profetizar, vem aí um vinho que vai dar muito que falar.

Nosso último compromisso com os vinhos foi visitar o carismático produtor alentejano João Portugal Ramos, em Estremoz.

Este engenheiro e enólogo que durante muito tempo dava consultoria na área de vinhos aventurou-se em um projeto próprio, a partir do final da década de 90, que hoje é uma referência positiva no mundo dos vinhos de Portugal. Presente a esta visita esteve o enólogo José Maria Soares Franco, que toca os projetos do Douro desta dupla de sucesso.

Após uma rápida visita a adega e bela sala de barricas, fomos às provas antes de um almoço, em família, onde alguns parentes de João Portugal Ramos e funcionários da Casa se juntaram à nós.

Iniciamos com dois vinhos básicos da linha os Loios Branco e Tinto, ambos corretos para vinhos a serem consumidos no dia a dia. Um espumante, o Conde de Vimioso caiu bem aquela hora, pois é leve e muito refrescante, e possui um intenso borbulhar. O já consagrado Marques de Borba Branco 2008 veio logo em seguida. Esta é a marca ícone da casa, possui uma cor amarelo dourada intensa, é leve e elegante. O almoço teve um destaque à parte, um excelente bacalhau ao forno com creme de brócolis, algo diferente, pois os dois gratinados ao forno são imperdíveis. Acompanhou esta iguaria o vinho Marques de Borba 2008, com o seu tradicional corte de Trincadeira, Aragonês e Castelão, que conferem ao vinho uma suavidade no paladar bastante agradável.

Provamos logo em seguida o Duorum 2007, produzido no Douro Superior, quase na fronteira com a Espanha. Neste vinho José Maria Soares Franco elaborou um requintado corte de Tinta Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz. Este vinho estagiou 6 meses em barricas de carvalho novo, tem 13,5% de álcool, e seus taninos são delicados e doces, já provando estar pronto para o consumo . Um outro vinho do mesmo nome, o Duorum 2007 Vinhas Velhas, elaborado com um corte de 90% de Touriga Nacional e Touriga Franca, mais 5% de Tinta Roriz e 5% de Souzão, esta última como sempre contribuindo com muita cor, ficou 3 dias em lagar com temperatura controlada a 10 ºC, para que as películas das uvas dessem o máximo de cor possível ao vinho. O Duorum Vinhas Velhas estagiou por 18 meses entre barricas novas e usadas.

Por fim, com uma jóia da casa, com um grande bolo de chocolate, degustamos o Vinho do Porto Duorum Vintage 2007. Aqui cabe sempre um comentário a mais. A safra 2007 de Vinho do Porto já está sendo considerada a melhor desta década, alguns a equiparam ao excelente ano de 1994, tanto que sua qualidade foi marcantemente superior, que 70 casas comerciais declararam Vintage nestes anos de 2007. Nos aromas este Porto nos remete a um grande caldo de frutas vermelhas batidas. É pujante a concentração de amoras e framboesas. Seu álcool é bem casado e de ótima qualidade, o vinho está robusto e marcante, como um vintage novo deve ser, e com o bolo de chocolate fez um feliz casamento.
De regresso a Évora, encerramos nossa visita ao Alentejo jantando no Dom Joaquim, que como sempre, surpreendeu a nós todos com suas iguarias, uma grande mesa de acepipes e uma ementa primorosa.
Para além desta viagem eno-gastronômicas, o turismo não foi deixado de lado, visitamos as tranquilas Vilas do Alentejo, onde voltamos no tempo graças a paz que reina por aquelas ruas e ladeiras de casas brancas com suas molduras ora azuis, ora amarelas , destacaram-se: Estremoz, Vila Viçosa,Redondo, Reguengos de Monsaraz, Monsaraz, Portal, Beja, Serpa e Évora Monte.
Sem a ajuda sempre prestimosa de Manuel Chicau, proprietário da Importadora Adega Alentejana (São Paulo) um alentejano da Aldeia de Montoito que tem orgulho de suas origens, ficaria difícil percorrer lugares tão bonitos e rever amigos tão queridos, além de provar o que há de melhor em termos de vinho e comidas, daquele pedaço do paraíso na Terra!

2 Comentários »

  • nuno disse:

    Sr. Cabral gostaria de saber se o Sr. não tem remorso depois de beber e comer todas essas iguarias!!! Um grande abraço.
    junior.

    FELIZ NATAL.

  • Carlos Cabral (author) disse:

    Caro Junior, jamais! A vida foi feita para ser vivida, e estas coisas boas da vida a gente conquista. Como estudo vinhos há 40 anos, e tal façanha gastronômica faz parte da minha profissão, tenho que enfrentar estas maratonas para melhorar o conhecimento e revelar ao mundo estas descobertas.

    Grato,

    Carlos Cabral

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