Aprender in loco – Histórica visita a Portugal
No final do ano passado, um grupo de 12 atendentes de vinhos do Grupo Pão de Açúcar deslocou-se a Portugal para uma visita de instrução em vinhos. O programa visou mostrar o maior número possível de regiões vinícolas em um espaço de nove dias.
A visita iniciou-se no Alentejo, na Herdade do Esporão, onde o enólogo Luis Duarte recebeu o grupo e o informou sobre as novidades da safra desse ano, bem como os avanços tecnológicos introduzidos na adega, caso de novos lagares de inox que mantém a manta submersa durante a fermentação dos tintos, permitindo assim maior extração de cor.
A noite, a comissão de vitivinicultura do Alentejo, presidida pelo eng. Joaquim Madeira, ofereceu ao grupo um jantar no famoso restaurante Fialho, em Évora.
Nessa mesma cidade, no dia seguinte, Visitamos a Fundação Eugênio de Almeida, na adega da Cartuxa. Seguiu-se uma larga prova de várias safras de Pêra Manca, os existentes e os que estão por nascer. Destaque para um excepcional vinho novo chamado Foral de Évora. Os enólogos da Fundação, prof. Colaço do Rosário e eng. Pimenta nos anfitrionaram.
Rumamos para Azeitão, onde visitamos a José Maria da Fonseca, com direito a visita às antigas caves, grande degustação de vários vinhos e minuciosa visita às novíssimas instalações de vinificação, as mais modernas de Portugal, em que Domingos Soares Franco, enólogo da casa, mostrou seus novos “briquedos”, como um lagar de inox para pisa a pé com um curioso apoio para os pisadores.
Em seguida, em Lisboa, fomos recebidos no Palácio de Belém pelo Presidente da República de Portugal, Jorge Sampaio, que deixou-nos à vontade, oferecendo-nos um Porto D’Honra no terraço do Palácio: um Vintage Ramos Pinto 1997, acompanhado de um espetacular queijo da Serra da Estrela.
Esse encontro impressionou a todos pela simplicidade de Sua Excelência e pelo seu interesse nessa novíssima profissão, atendente de vinhos, criação brasileira que Portugal devia copiar, segundo Jorge Sampaio.
Em seguida, rumamos para Rio Maior, onde visitamos as Caves Dom Theodósio e a Quinta de São João Batista. Aqui degustamos vários vinhos novos do Ribatejo. Luis Gouveia fez questão de destacar todos os esforços da Dom Theodósio na recuperação das antigas instalações da Quinta de São João Batista.
Na Bairrada, foi a vez de visitarmos as Caves Aliança. Impressionou-nos a modernidade das novas instalações de fermentação. Um sistema de transporte do mosto em fermentação e sua remontagem, no qual o vinho é transferido em enormes vasilhas de inox suspensas por um guindaste, foi a atração.
A prova que realizamos foi extensa e a qualidade superior foi a constante. Mais uma vez o fidalgo Mário Neves nos recepcionou com simpatia.
No Porto, um grande número de visitas nos esperava. Começamos com a J.W.Burmester, cujas novas instalações modernas, adequadas em edificios centenários de Vila Nova de Gaia, chamaram a atenção. Uma longa prova de Portos Vintages, Colheitas, Denominações de Idades e LBV, com todas as explicações pertinentes fornecidas pela enóloga da casa e por José Teles, velho amigo e confrade que hoje comanda os destinos dessa casa de 251 anos de idade, precedeu um saboroso jantar.
Na Casa Ramos Pinto, João Nicolau de Almeida, o mais premiado enólogo de Portugal e a patrimonióloga Ana Filipa Correia foram os nossos anfitriões. Aqui, assistimos ao retorno de um par de abotoaduras com que a casa Ramos Pinto presenteava seus clientes em 1910, que foi por nós levada do Brasil para o Museu da Casa Ramos Pinto. Na sala de provas, após uma longa lista de vinhos degustados, João Nicolau de Almeida brindou os presentes com uma taça para cada um de um Colheita 1880, o ano da Fundação da Casa. Foi classificado como uma pomada: rico em cor e aromas de baunilha intensos.
Na casa Manoel D. Poças Junior, fomos recepcionados pelo neto do fundador da casa, o Manuel Joaquim Poças Pintão, o que ensinou “os ingleses a serem lordes”. Com cortesia e forte amizade, essa casa nos recepcionou com um almoço, em que, no centro da mesa, um arranjo de flores com os desenhos das bandeiras do Brasil e de Portugal deu um toque de simpatia e alegria a todos nós. Percorremos todas as instalações da casa e guardamos um pouco da ansiedade para o Douro, onde visitaríamos dias depois a Quinta das Quartas.
Fomos recebidos no Instituto do Vinho do Porto por toda a sua direção, que nos franqueou uma longa visita ao setor técnico, aquele que aprova os vinhos do Porto e lhe confere o Atesto. A moderna câmara dos provadores chama a atenção pela simplicidade dos provadores e a alta tecnologia instalada.
É, sem sombra de dúvidas, o mais sério e competente laboratório vinícola da Europa. Uma prova no Solar do Vinho do Porto, no Solar das Macierinhas, antiga propriedade da grande Antônia Adelaide Ferreira, encerrou nossa visita ao IVP.
Na Casa Ferreira fomos recebidos por José Maria Soares Franco, que desceu do Douro, em plena vindima, para nos recepcionar. Após correr as instalações em Gaia, incluindo a célebre garrafeira, fomos a sala de provas, onde duas dezenas de vinhos nos aguardavam, antigos Barca Velha e os que estão no prelo foram degustados, Vintages e Colheitas, uma boa coleção de exemplares de Porto Offley idem. Seguimos para almoço em Avintes, na sede da Sogrape, onde Fernando Guedes Neto nos aguardava. No final do almoço seu irmão Salvador Guedes juntou-se à nós.
Da Sogrape seguimos para a Real Companhia Velha, a mais majestática de todas. Manuel José Silva Reis nos aguardava para uma longa visita às caves, ao túnel dos espumantes, a biblioteca e a um jantar, antes precedido de uma prova. Causou furor entre os presentes o contato com o documento original da criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, de 10 de Setembro de 1756, assinado pelo Marquês de Pombal. Os vinhos maduros produzidos no Douro por essa casa foram o sucesso da noite.
Terminando a viagem que um grupo de 12 atendentes de vinhos do Pão de Açúcar realizou em Portugal, em setembro de 2002, fomos ao Minho. Essa é a região demarcada dos vinhos Verdes. Lá, fomos a Penafiel, 30 km ao norte da cidade do Porto, visitar a Quinta da Aveleda, casa vinícola líder na produção e venda de vinhos Verdes, com diversos rótulos, alguns emblemáticos de tão populares, como o Casal Garcia.
Afora a qualidade inquestionável de seus vinhos, a Aveleda surpreende a todos os visitantes por possuir o mais belo jardim privado de Portugal. Um jardim projetado e concebido há mais de cem anos, rigorosamente bem cuidado, formando bosques por entre alamedas, nos quais árvores centenárias confundem-se com muitas obras de arte distribuídas harmonicamente pelos gramados.
Em frente da casa principal existe uma fonte que representa as quatro estações do ano. Cada uma é representada pelo perfil das mulheres da família Guedes, que habitaram a casa. Destaca-se também a adega velha, onde a mais fina aguardente de Portugal é envelhecida por 40 anos.
Nos terraços da instalação de recepção, foi-nos servida uma degustação de todos os vinhos produzidos pela casa. O presidente da Quinta da Aveleda, sr. Antônio Guedes, e seu diretor de exportação, sr. Paulo Amorim, com todo o refinamento lusitano, nos serviram seus vinhos e, logo em seguida, um almoço, em que uma sopa fria de camarões foi o destaque.
Em seguida, dirigimo-nos ao Centro de Vinificação da Casa Borges, na localidade da Lixa. Recebidos pelo diretor de exportação, o amigo e confrade Mario Saraiva Pinto, percorremos um vasto parreiral de cepas típicas de vinho Verde em condução de lira. Um parreiral bem cuidado, do qual provém grande parte das uvas que entram na elaboração dos vinhos superiores da Borges. Seguiu-se uma prova técnica com mais de dez vinhos, destacando-se os espumantes de finíssima qualidade.
No cair da noite, fomos à lendária cidade de Amarante, onde nas antigas instalações do célebre vinho Casa da Calçada, hoje transformada em um relais-château, de requintada decoração, bem típica portuguesa, a Casa Borges ofereceu ao grupo um jantar-degustação de nove pratos e nove vinhos diferentes.
Foram nove dias de glória. Aprender in loco ainda é a melhor forma de travar contato com civilizações e vinhos.
Artigo publicado na revista Vinho Magazine – nº 38 e nº 41, ano 5, 2003
Saudações Vinícolas!
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