Boas compras no supermercado
É muito comum, à medida que aumentamos nosso conhecimento sobre vinhos, aliado ao poder aquisitivo, que nossas escolhas recaiam sobre as lojas ou importadoras especializadas, geralmente instaladas em bonitos pontos-de-venda ou show-rooms de requintado bom gosto. Esse é o sonho de consumo de todos nós. Mas, não devemos dar as costas para os supermercados, pois esses estabelecimentos comerciais estão na ponta quando o assunto é variedade e relação custo-benefício. Nos últimos 20 anos de minha vida profissional, tenho trabalhado com vinhos de volume, ou seja, marcas que vendem muito, e que por pura ignorância, poucos aceitam falar delas, mesmo tendo iniciado vida de enófilo com um rótulo bem popular. Negar as origens é demonstrar falta de personalidade. Quantos senhores do vinho, com “s” maiúsculo, que conheço, não começaram há 30 anos passados a beber vinhos e a apreciar esse sagrado líquido com as famoosas garrafas azuis do Liebfraumilch, da Alemanha? Pois bem, tirando hoje 30 rótulos que são considerados “commodities”, e que representam 30% da venda total de vinhos do mercado brasileiro, como Mateus Rosé, Dão Grão Vasco, Casal Garcia, Periquita, Concha y Toro reservado, Santa Carolina reservado, Santa Helena reservado, Santa Ana, Miolo Seleção e Chalise, entre outros. São os supermecados e os resultados que sabem tratar bem o vinho, A política de bem trabalhar os vinhos em supermercados, teve início nos idos da década de 70, como “ponto de honra pessoal” do sr. Manuel da Silva Sé, que não se conformava em vender pouco vinho em seus supermercados. Para reverter isso, ele baixou uma norma que as margens de preços de vinhos em suas lojas deveriam ser muito baixas, a fim de estimular o consumo. Criou um restaurante de bacalhau chamado Dom Silvano, onde se vendiam vinhos ao mesmo preço das prateleiras de suas lojas. Lembro-me das enormes seções de vinho que mantinha em suas lojas, como as de Campo Limpo, Franca e São José do Rio Preto, sem me esquecer da loja campeã de vendas, a da Praça Panamericana, em São Paulo, SP.
Seu exemplo frutificou. O Grupo Pão de Açúcar desde o ano 2000 passou a utilizar uma superestratégia para vender mais vinhos, criando o serviço personalizado de atendimento de seus clientes pelos Atendentes de Vinhos. São jovens formados na própria empresa, que trabalham nos corredores de vinhos, tirando as dúvidas dos clientes. Os jovens são preparados em aulas técnicas e práticas e viajam em visita às diversas regiões produtoras de vinho para ampliar seus conhecimentos. O resultado é fantástico, em quatro anos, o Grupo Pão de Açúcar atingiu a liderança de vinhos no Brasil, com o espetacuular número de 19,6 milhões de garrafas vendidos no ano de 2004.
Podemos afirmar que dificilmente um supermercado brasileiro venderá Romanée Conti ou Petrus em suas lojas. Isso é poesia. Todos os proodutores de vinho do mundo têm, geralmente, duas ou três linhas de vinho distintas, os seus “Top Quality”, geralmente, um ou no máximo dois vinhos. O importante, nesse caso, é sua assinatuura na garrafa. É exatamente aí que os supermercados funcionam como uma “autoescola do vinho”. Centenas ou milhares de marcas fazem sua entrada no mercado por meio dessas superlojas, e não pensem que entram somente por causa do preço. No Pão de Açúcar, todo o vinho que entra em linha, já passou por degustação técnica e deve realmente oferecer qualidade pelo preço que pede, e aí entra a parte mais difícil: como a empresa tem 44 milhões de clientes mensais, tem-se a obrigação de agradar ao máximo esse exército de consumidores. Os mais importantes enólogos do mundo vêm constantemente ao Brasil, e adoram passar por supermercados, porque sabem que ali está o futuro do vinho. Com um consumo pífio de 2 litros per capita, o Brasil é, no momento, o país mais importante do mundo para as novas marcas de vinho. Por obrigação e gosto, vivo visitando supermercados e a cada dia descubro verdadeiras maravilhas, muitas delas por menos de 20 reais. Manoel Beato, do grupo Fasano, o mais famoso sommelier do Brasil, em recente palestra afirmou que vive comprando vinhos em supermercados, e tem mai alegrias do que tristezas com essas investidas.
Tenho tido agradáveis surpresas, quando promovo provas às cegas com vinhos de supermercados e vinhos bem mais caros. Até o degustaador admitir que o vinho de que gostou custa metade do preço do outro, que é mais medalhado, é uma tourada. Vale aqui, mais uma vez, a grande verdade: o melhor vinho do mundo é aquele que a gente bebe e gosta, e ponto final. Venha ele da adega de um barão, da prateleira de um supermercado, ou da casa de nossos avós, o importante é que e e vinho deixe saudades!
*Texto publicado na revista Prazeres da Mesa em dezembro de 2008, nº66A
Olá Carlos,
Só para ilustrar o seu comentário acima “Podemos afirmar que dificilmente um supermercado brasileiro venderá Romanée Conti ou Petrus em suas lojas.” temos uma exceção, tive o prazer de ver na nova e belíssima adega do supermercado Makro de Campinas um exemplar do Petrus. Uma fortuna (R$12.900,00)! Não sei se será vendido, mas estava lá!
Abraços,
Jorge
Caro Jorge,
Há passados 10 anos, o Carrefour fez o mesmo na sua Mega Loja da Avenida Ricardo Jafét em São Paulo, e resultou que grande parte foi roubada e os que sobraram tiveram seus preços reduzidos até quase 90% do preço original, comprei alguns Sauternes lá.
É muito errado este procedimento, cria um enorme mal estar, exatamente pelo preço, pois não há publico em supermercado que compre estes vinhos que necessitam de cuidados especiais. Este exemplo do Makro equivale a se ter uma Ferrari na garagem e não ter dinheiro para por gasolina!
Grato,
Carlos Cabral
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Carlos Cabral
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