Nostalgia à mesa
Este texto é sobre uma receita de bacalhau que marcou época e me deu uma enorme coleção de amigos. Fui proprietário, em sociedade, da Casa Cabral, uma bonita loja nos Jardins, bairro de São Paulo. O lugar oferecia 1.000 rótulos de vinhos, entre eles 187 do Porto, além de uma infinidade de comidas importadas e o melhor da delicatessen brasileira da época, o que incluía um bacalhau que fez história.
No piso superior da loja havia uma sala destinada aos cursos de vinho que ministrei continuamente por três anos. O espaço tinha cinco mesas e 20 cadeiras. Certo dia, resolvemos montar ali uma sala de refeições para servir apenas bacalhau, somente dois dias por semana, e só no almoço. No cardápio, três pratos: bacalhau nas natas, bacalhau ao vinho do Porto (receita de José Antonio Ramos Pinto Rosas) e o bacalhau assado com batatas ao murro – uma versão levemente modificada por mim do célebre bacalhau à lagareira.
Um trio de ouro de portugueses fez a vez de pilotos de provas dos pratos: os confrades Armando Reis e Emídio Dias de Carvalho e o todo-poderoso senhor dos hipermercados Eldorado, Adelino Veríssimo. Coitados, tiveram de comer um bacalhau salgadíssimo – eu ainda não havia acertado a mão na arte de de molhar o peixe. Após dois meses de testes, só o assado com batatas ao murro ficou no cardápio até o fechamento da Casa Cabral, a 30 de outubro de 1995.
Uma grande posta de bacalhau (Porto Imperial 8/10), muito branco, sem a pele, empanada na farinha de rosca com pó de alho, que recebia um banho de azeite bem quente antes de ir por 10 minutos ao forno. Esse foi por dois anos a alegria de muita gente. E graças a esses admiradores, a lenda tomou forma.
O grande criador de vinhos da Bairrada, Luis Pato, afirma até hoje nunca ter provado nada igual. Alguns clientes que ficaram assíduos saboreadores desse prato solicitaram que eu o fizesse em suas casas em dias de festa familiar.
E lá íamos, Leda e eu, para a agradável missão. O artista plástico Emanuel Araújo, o banqueiro Toninho Herman, o empresário Emílio Odebrecht, o investidor Gilberto Bomeny, o nobre italiano Ângelo Granito di Belmonte, o chef Sergio Arno, os amigos Lina e Candeias, e o pessoal da banda Titãs estão entre os tantos que prestigiavam com assiduidade o pequeno restaurante. Até Paul Pontalier, enólogo-chefe do Château Margaux, provou desse bacalhau.
O mesmo peixe preparado para o restaurannte era vendido limpo e sem pele na loja. A dupla Juscelino e Edvaldo, com dois alicates utilizados para cirurgias ortopédicas (peças de superinox que não enferrujam em contato com o sal), retiravam as espinhas maiores do peixe, sem lhe rasgar a carne, embalavam com cuidado e exibiam suas obras de arte na geladeira no fundo da loja. E para aqueles que compravam o bacalhau dessa forma, passávamos a receita com muito carinho – era nossa maior propaganda.
E não posso esquecer os vinhos que a loja fornecia ao preço da prateleira. Lançamos e ajuudamos muito no sucesso do verde Trajadura, da Quinta da Aveleda, e do tinto Esporão Reserva. Grandes experiências com vinhos foram realizadas com esse prato: degustamos de Barca Velha a Sauvignon Blanc da Nova Zelândia – uma raridade na época. A maior ousadia foi acompanhar o prato, a pedido de um senhor mexicano, com Champagne Veuve Cliquot Brut!
Por diversas vezes, na Quaresma, veículos de comunicação nos entrevistaram sobre o preparo do peixe. Lembro-me de uma equipe de fillmagem comer uma baciada de bolinhos de bacalhau enquanto gravava nosso trabalho.
Até hoje cruzo com pessoas que pedem paara voltar a preparar o prato e servi-Io. Foi um temmpo bom aquele, mas o melhor foram as amizades que dele brotaram e que até hoje se mantêm.
*Texto publicado na revista Prazeres da Mesa em março de 2009, nº68
Gostaria de receber sua receita de bacalhau ao vinho do porto, publicada em 1995 na revista gula
Muito obrigada
Cara Giovana,
Esta é uma iguaria que quem prova, sempre diz que uma só vez basta, porque o prato deixa o bacalhau cor de rosa e com sabor adocicado, algo muito distinto para esse peixe.
A receita é muito simples, vou dar para uma só posta de 300 g. Depois de demolhada (tirado o sal) forrar uma cumbuca pequena de barro ou um pirex pequeno com uma cebola cortada em fatias, coloque a posta de bacalhau sobre a cebola, coloque em cima do bacalhau mais uma cebola média cortada em rodelas, ponha algumas azeitonas pretas miúdas junto e complete com vinho do Porto Ruby, até cobrir a cebola de cima. Quanto mais estreita a forma, menos vinho será usado. Leve ao forno de 180 graus por 50 minutos, e só retire para comer quando todo o vinho secar.
Como afirmei, o peixe ficará cor de rosa,e de sabor adocicado por causa do vinho e da cebola cozida.
Grato,
Carlos Cabral
Querido Cabral, nunca esqueci o bacalhau que comemos na sua loja, aquele com Nata e o outro mergulhado no azeite. Saudades do tempo em que batíamos longos papos na loja e tomando vinho do Porto 40 anos, que privilégio! Só que o senhor nos fazia tomar de joelhos, lembra-se? Um forte abraço, Júnior.
Caro Junior,
Também tenho saudades daqueles tempos, mas foi bom, passou e nós podemos recordar com alegria, por isso que digo, “os bons vinhos não se guardam nas adegas, mas sim na memória.”
Grande abraço e até sempre,
Cabral
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Carlos Cabral
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