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O confrade Saul Galvão (1942–2009)

9 setembro 2009 | por Carlos Cabral | 4 Comentários

Foi no final de 1981 que cruzei com o Saul Galvão, já na época, renomado jornalista gastronômico do velho e bom O Estado de São Paulo.

Nosso encontro ocorreu em uma promoção do ICEP-Portugal, dirigido por José Manuel de Braga Dias, no então recém inaugurado Sesc Pompéia. Eu fiz uma palestra sobre vinho do Porto e o Saul uma sobre os Vinhos do Dão, para os membros da Associação Brasileira de Maitres D’Hotel, então dirigida pelo Sr. Walter Mazzieri.

Desde aquele momento nos tornamos amigos, e o vinho, o elo de nossa união. Como leitor assíduo de suas matérias, acompanhei a trajetória gastronômica de Saul como crítico, sempre construtivo e que fazia questão de pagar o que comia, para ter assegurado o direito de criticar.

Tinha uma paixão louca por Paris e seus bistrôs, onde seu velho amigo Reali Junior, morador na cidade luz há muitos anos, selecionava sempre para o amigo os melhores endereços.

Com Saul tive a oportunidade de fazer algumas viagens internacionais e outras pela Serra Gaúcha, sempre tendo o vinho como tema central.

Recordo-me de uma que fizemos para a Sicília, na qual constava uma visita à pequena Ilha de Panteleria, onde iríamos ver e conhecer de perto o fantástico vinho Moscato Passito. Quando chegamos ao aeroporto de Palermo e o Saul viu o tamanho do pequeno bi-motor que nos levaria a ilha, Saul foi categórico:

- Eu não viajo nessa lata velha!

Após muita conversa de todos os presentes, inclusive o confrade Jorge Carrara, Saul aceitou viajar, mas não deixou de falar mal do avião, na ida e na volta, só que desta vez menos, pois degustamos muitos vinhos doces nessa ilha.

Certa vez em Punta Del Leste, no Uruguai, em um almoço, um prato veio decorado com carambola cortada em fatias. Muito sugestiva aquela decoração, todos comentávamos à mesa, até que Saul disse não conhecer aquela fruta!

Surpresa geral! Como? Justamente Saul, que vivia cantando em prosa e verso as delícias de sua infância em Jaú, onde convivia com a natureza e uma abundância de iguarias. Questionado, e muito gozador, respondeu:

- Lá em Jaú nós conhecemos esta fruta como “star fruit”!

Gargalhadas em  geral!

Assim era este Confrade, com quem tive o prazer de degustar muitos vinhos, nunca mais que ele. Como fazia parte da Confraria do Amarante, que recentemente celebrou 25 anos de existência, posso afirmar que Saul passou por esta vida e deve ter degustado alguns milhares de rótulos, que com muita competência, os descreveu em seu clássico livro “Tintos e Brancos” que é uma obra de referência para todos os brasileiros iniciados no mundo do vinho.

Meu confrade nas Confrarias do Vinho do Porto, da Bairrada, do Vinho da Madeira e do Alentejo, Saul foi um bom companheiro de taças e histórias.

Quando soube que estava doente e que iria iniciar um tratamento muito forte, liguei para ele e disse:

- Amigo, vê lá, não me decepcione, afinal tenho um Porto Ferreira Vintage 1934 para degustarmos juntos!

- OK, registrado Cabral.

Está foi a sua resposta.

Infelizmente não deu tempo de degustarmos esta iguaria e continuarmos a celebrar a vida. Espero que exista um bom vinhedo para onde o Saul foi, e que ele comece a preparar um vinho para quando eu chegar por lá.

Fique com Baco, amigo!

Legenda da foto:  Troféu Vitis Destaque Jornalístico 2006 – Saul Galvão

4 Comentários »

  • Valéria Dantas disse:

    Saul Galvão, assim como Cabral, foi um grande mestre para os iniciantes e iniciados no mundo do vinho.
    Quem não começou a degustar um bom vinho, tintos e brancos, após ler um de seus livros??
    Que vá com Deus e por lá encontre bons vinhos para nos receber..daqui há algumas décadas, espero!

  • Ana Maria Vega Milagres disse:

    Cabral,querido amigo,mais uma vez você se faz presente de maneira brilhante,com seu carinho,sua atenção e suas palavras que sempre marcaram profundamente momentos muito felizes e profundamente tristes como este e outros tantos que já vivenciamos.Tenha sempre em mente que você e a Leda estarão sempre,sempre no meu coração. Beijos.

    Ana Maria.

  • samuel disse:

    gostaria de saber sobre o livro tintos e brancos

  • Carlos Cabral (author) disse:

    Caro Samuel,

    O saudoso amigo e Confrade Saul Galvão, que nos deixou no passado 2009, escreveu vários livros, mas este seu ultimo Tintos e Brancos é completo. Fala da parte técnica e descritiva de todas as regiões produtoras do mundo e relata as experiências pessoais do Saul com cada vinho que degustou ns 66 anos que viveu.

    É uma grande obra de referencia e a editora é a Conex, http://www.editoraconex.com.br

    Quem gosta de vinhos deve ler esta obra.

    Grato,

    Carlos Cabral

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