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O Douro com raça

18 agosto 2009 | por Carlos Cabral | Seja o primeiro a comentar

Voltemos a 1976. Naquele ano, raros ou muito poucos vitivinicultores do Douuro elaboravam vinhos tintos maduros na região portuguesa. Esses vinhos eram para consumo próprio e somente o emblemático Barca Velha aparecia no mercado. Em anos de bons vinhos, algumas marcas faziam sua entrada no mercado, muito timidamente, como é o caso do Lello, da Casa Borges e Irmãos.

Volto a 1976 porque foi nesse ano que um jovem enólogo português, formado em Bordeaux, na França, voltava para casa com seu diploma debaixo do braço e dois grandes desafios para enfrentar. O primeiro era o de não se lançar ao mundo dos vinhos à sombra de seu pai, o lendário Fernando Nicolau de Almeida, o “mago” ou o “cheirista” que inventara o Barca Velha. O segundo desafio era o de trabalhar ao lado do maior sonhador que o Douro já viu: seu tio José Antonio Ramos Pinto Rosas, o “lord” do vinho do Porto e a maior personalidade do Douro no século XX.

Esse jovem, João Nicolau de Almeida, saiu-se melhor que a encomenda. Juntou em si todas as qualidades – que não são poucas – de seu pai e do tio. Encontrei o João pela primeira vez em 1982, na Quinta do Bom Retiro, localizada no “cima Corgo”. Estávamos num quartinho de uns 6 metros quadrados, com prateleiras de madeira que sustentavam diversos pequeninos tanques de inox para as fermentações experimentais.

Lá, ele e seu tio Zé Antonio aos poucos iam descobrindo as virtudes e alguns defeitos de diversas castas que germinavam no Douro há séculos, mas que nunca haviam sido estudadas daquela forma. Nascia naquela sala o que era o embrião da Associação para o Desenvolvimento da Vitivinicultura Dourense, a ADIVID, todos os princípios que hoje nos enchem o coração de alegria, com os fantásticos vinhos tintos do Douro que não param de surgir.

Após anos de estudos, nove castas foram recomendadas como as de maior excelência em qualidade e produtividade. Entre essas destacam-se Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Tinto Cão.

Mas não só as castas receberam a atenção dessa dupla dinâmica. O sistema de condução das vinhas, o trabalho tão penoso para o culltivo e manuseio dos vinhedos da região também foram objeto de estudo desses dois paladinos, surgindo assim o sistema de condução conhecido como “Vinhas ao Alto”.

Com tudo pronto, a dupla se lançou à caça de terrenos para implantação de novas vinhas. Nessas terras, os lotes cultivados são organizados por cepas, e não mais misturados como era a prática corrente no Douro até o início do século XX. Surge a Quinta de Ervamoira, o “jardim no meio do deserto”, na localidade de Muxagata, no Douro Superior, também conhecido como o Douro Internacional, por estar contíguo à fronteira da Espanha. Lugares áridos, inóspitos, sem vegetação, com um clima tórrido, onde nunca se imaginou que pudesse brotar alguma coisa foram transformados no Paraíso do Douro, com irrigação controlada, outra novidade que a dupla implantou na região.

A Casa Ramos Pinto sempre teve outras propriedades ao longo do Douro, e é de duas dessas propriedades que João Nicolau de Almeida fez surgir o mais regular vinho do Douuro. Para elaborar o “Duas Quintas”, as uvas são procedentes da Quinta de Ervamoira e da Quinta dos Bons Ares, que fica junto ao Rio Torto, um afluente do Douro.

Não resta dúvida, trata-se do vinho mais estável do Douro, que acumula qualidades ao passar dos anos. Mesmo em safras pobres, o Duas Quintas mantém uma qualidade superior se comparado a seus congêneres. E nos bons anos, João separa o pouco obtido para fazer o Duas Quintas Reserva, este já elevado ao mundo dos ícones.

Recentemente, João promoveu uma prova vertical com todos os Duas Quintas Reservas disponíveis, do primeiro editado em 1991 até o 2005. Onze safras entraram na prova, sendo que os de 1992 e 1994 se destacaram com as maiores pontuações. A Revista de Vinhos, de Portugal, fez uma prova com 58 tintos do Douro, e o primeiro colocado foi o Duas Quintas Reserva Especial 2004.

“João Nicolau de Almeida herdou do pai e do tio o amor irrestrito pelo Souro e suas coisas”

No evento da degustação das 11 safras, João, que além de enólogo é também o presidente da Casa Ramos Pinto, informou que colocará em breve à venda algumas caixas sortidas com essas colheitas degustadas, todas especiais. Aos interessados: é bom fazer reserva.

Independentemente da capacidade de fazer bons vinhos, quem tiver o privilégio de conhecer o João Nicolau de Almeida, e partilhar uma boa conversa, verá que além de profissioonal, ele herdou do pai e do tio o amor irrestrito pelo Douro e suas coisas. Falo de um amor castiço, que envolve o respeito por sua gente, pelas tradições, pelo passado de glória da região, mas sem tirar os olhos do futuro. João tem um filho enólogo, que assim como ele formou-se em Bordeaux, e já dá seus passos de sonhador pelas colinas do Douro, como criador de vinhos, muito longe da sombra de seu pai – o que nos leva a crer que esta família de boa cepa e de muitos bons frutos nos darão boas surpresas por muito tempo.

*Texto publicado na revista Prazeres da Mesa em fevereiro de 2009, nº67

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