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O vinho no Brasil, em 2008

17 outubro 2008 | por Carlos Cabral | Seja o primeiro a comentar

Brasil vive dias de felicidade com reflexos positivos em todas as áreas, e o vinho não fica fora dessa festa. Os produtores, os importadores e os consumidores vivem seus melhores momentos em relação ao vinho. O ano passado já foi pródigo para o setor. No Brasil, os espumantes, mais uma vez, deram a nota positiva, e o brasileiro, finalmente, adotou esse vinho para o seu dia-a-dia. O espumante é atualmente o vinho de vocação nacional, sua qualidade vem se destacando e, com ele, abriremos as portas do mercado internacional, em que uma juventude descompromissada com as antigas regras de comportamento consome cada vez mais vinhos prontos para beber.
O produtor nacional aprendeu, a duras penas, que depende só de si mesmo. No longo e penoso caminho da reconversão dos vinhedos, de uvas híbridas para viníferas, mais vale a ousadia do que esperar “esmolas oficiais”. E, assim, os velhos vinhedos vão mudando de cara. Aguardamos para 2008 uma colheita “pré-adolescente” dos vinhedos plantados recentemente na Campanha Gaúcha, nas serras de Santa Catarina e no Vale do Rio São Francisco.
Em um futuro próximo, deverão surgir no mercado varietais de cepas recém-cultivadas no interior de São Paulo, inclusive com novos vinhos da tradicional São Roque, terra de origem de vinhos populares. Os tintos elaborados com a cepa Merlot vão melhorando em qualidade a cada ano. A busca de um vinho superior brasileiro acirra a concorrência entre os produtores, gerando bebidas altamente diferenciadas, jamais vistas entre nós.
Os supermercados descobriram uma nova “galinha dos ovos de ouro” com seus requintados espaços de vinhos, que formam um generoso leque de opções para o consumidor final. O supermercado é a auto-escola na formação do enófilo moderno. É em suas prateleiras que o consumidor encontra a sua “Disney dos vinhos”, com garrafas para todos os gostos e bolsos, com grandes chances até de provar o vinho escolhido.
É muito melhor para um supermercado ser reconhecido como um especialista em vinhos do que ser um grande vendedor de sabão em pó. Hoje, as grandes redes de varejo investem na formação de jovens especializados no atendimento vinícola, das mais simples dúvidas até as sugestões de harmonizações mais complexas.
Em 2008, as associações e confrarias de enófilos formarão milhares de novos adeptos do mundo do vinho, os quais formarão um grande exército de enófilos apaixonados e alguns batalhões de enochatos. O crescente aparecimento de novas importadoras é altamente positivo, porque faz alargar cada vez mais o leque de opções.
Devemos assistir, ainda neste ano, a um acirrado duelo entre Chile e Argentina pelo domínio na preferência do brasileiro. Com o dólar desvalorizado, o Chile tem mais a perder, pois seu custo de produção é mais oneroso em relação à jovem vitivinicultura qualitativa da Argentina. Mas, sem querer arriscar um palpite, creio que ainda neste ano o Chile manterá sua posição de primeiro vinho importado consumido no Brasil.
No tocante à Europa, após anos de luta em que Portugal reconquistou seu lugar de honra, na preferência nacional aparecerá fortemente a Espanha para tentar estragar a festa lusa. Com
vinhos novos, jovens e modernos, de Denominações de Origem antes desconhecidas, a Espanha vem com força total, com um quesito a mais além da qualidade: “o preço baixo”. Para os vinhos comuns, sem “crianza” (envelhecimento em madeira), os preços espanhóis das garrafas são imbatíveis. E é justamente aí que mora o perigo: Portugal, Itália e França que se cuidem. Italianos e franceses devem repensar suas estratégias para o Brasil. Nós não estamos mais aceitando de bom grado nomes pomposos ou embalagens sofisticadas, porque em termos de qualidade, temos Chile, Argentina e Brasil fornecendo continuamente qualidade e preço.
Todo esse cenário, no entanto, só pode virar filme de terror se o governo federal e alguns governos estaduais, em nome das perdas de receita com a CPMF e o ICMS, resolverem culpar o vinho e transformá-lo no vilão da história, aumentando os impostos, quer de importação, quer de comercialização. Aí, mais uma vez, nossos governantes estarão prestando um grande desserviço a seus eleitores, porque uma população que bebe vinho é um povo feliz.

Artigo publicado na revista Prazeres da Mesa – nº 56, fevereiro/2008

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