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Os vinhos do Natal de 2009

5 janeiro 2010 | por Carlos Cabral | 5 Comentários

Neste Natal de 2009, fomos 24 pessoas em torno da mesa. Descontadas as quatro crianças, os 20 adultos puderam saborear uma coleção muito heterogênea de vinhos. A escolha foi de liberdade total, somente um vinho tinha já seu lugar marcado, pois seria degustado no final da refeição acompanhando os maravilhosos e já tradicionais biscoitos de amêndoas que minha mulher Leda prepara todos os anos para esta data.

O vinho em questão era um Porto Vintage 1972, da famosa Casa Dow’s. O ano celebra para nós o nascimento de nosso filho primogênito, o André. Pela data, este Porto apresentou aspectos de um grande tawny. A borra, que era muita, já havia se decantado no fundo da garrafa. Os aromas e sabores de frutas vermelhas estavam presentes e delicados, como cabe a um vinho dessa idade. Como sempre, um senhor vinho, digno de nossa melhor atenção.

Antes de nos sentarmos, algumas garrafas de Espumante Moscatel da Salton e do Club des Sommeliers foram degustadas. Esses vinhos oriundos da uva Moscatel, bem gelados, aromáticos e levemente adocicados são sempre um sucesso entre aqueles que não têm o vinho como alimento diário. Estes dois espumantes são bons vinhos de pré-festas. Quando servidos a baixas temperaturas, fazem surgir suas excelentes qualidades aromáticas, que encantam a todos.

Com o Bacalhau nas Natas, outra obra de arte da Leda, foram levadas à mesa duas opções de vinho branco. A primeira um Sauvignon Blanc 2008 da Casa Silva, do Vale de Colchagua, no Chile, rico em aromas de frutas tropicais como goiaba, abacaxi e maracujá, com espetacular acidez e retrogosto longo e persistente. O outro vinho foi um Chardonnay Mount Riley 2008, da Região de Marlborough, na Nova Zelândia. Um potente vinho com 14% de álcool e um corpo digno de destaque. Aromas florais e de frutas também estavam presentes, além da boa acidez sempre desejada nestes casos.

O produtor desse Chardonnay está tentando vender seus vinhos no Brasil e possui uma coleção de varietais de fazer inveja. Seu Riesling, por exemplo, não fica a dever nada aos melhores caldos produzidos na Alemanha. Ambos os vinhos são apresentados em garrafas com Screw-cape, a tampa de metal com rosca que, dentro de mais alguns anos, será a grande opção para os vinhos jovens de consumo rápido, ficando os vinhos de guarda com as tradicionais rolhas de cortiça.

Quando as carnes e as massas foram servidas, fomos até a adega buscar duas jóias distintas. A primeira foi o vinho Matilda Plains 2006, oriundo da Austrália, na jovem casa vinícola Bremerton fundada em 1988, localizada em Langhome, no sul do país. Trata-se de um bem elaborado corte de Shiraz com Cabernet Sauvignon, com a potência de 15% de álcool – em outras palavras, um “vinhaço”. Dez dias depois, ao escrever estas linhas, ainda sinto seu gosto na boca, que era de uma explosão de frutas vermelhas maduras, com um toque inconfundível do Shiraz daquelas bandas do mundo! O nome do vinho homenageia uma cadela que vive nos vinhedos. No rótulo, há um selo dourado com sua imagem. Já no contra rótulo encontramos, além da assinatura do enólogo, um desenho da pata cheia de sardas da cadelinha que também assina o vinho.

O outro vinho tinto foi um troféu de uma viagem que fiz em 2003 para a África do Sul – o Boschendal Grand Reserve 2001. Este vinho é produzido somente em anos excepcionais, quando as uvas estão no ponto certo de maturação e com qualidades superiores. Trata-se de um corte de 45% de Cabernet Franc, 35% de Cabernet Sauvignon, 15% de Shiraz e 5% de Merlot, com um álcool total de 14,5%. O produtor é um dos mais antigos daquela terra. A empresa, fundada em 1685, só produz vinhos de altíssima qualidade até hoje. É um vinho sublime em todos os aspectos, com uma forte e marcante personalidade.

Para acompanhar o conjunto de doces que foi servido e fechar com chave de ouro a magnífica celebração, abri o Trilogia da José Maria da Fonseca. Trata-se de um Moscatel de Setubal muito raro e especial, pois é um corte de vinhos Moscatéis dos anos 1900, 1934 e 1965, três anos de qualidades superiores nos quais se obtiveram vinhos raros de Moscatéis e que o tempo só os fez melhorar. A garrafa aberta, totalmente seca, ainda libera os aromas de damascos e baunilha.

Como sempre fazemos, lembramos dos ausentes que já não estão mais conosco, agradecemos por mais um ano de vida, brindamos o futuro, pedimos a Deus que continue a cuidar de todos nós e renovamos os votos para estarmos todos juntos novamente neste Natal de 2010 – sempre acompanhados de amor, amizades e bons vinhos!

5 Comentários »

  • Marcos disse:

    Isso mesmo Cabral, grandes datas, grandes vinhos e as pessoas que amamos vivendo tudo isso conosco é o que faz a vida valer a pena ser vivida!

  • MARIELBA disse:

    Querido amigo Carlos, parabéns pelo seu site. Está excelente! Só você para repartir seu conhecimento sobre os vinhos desta maneira didática e super agradável. Vou continuar te visitando aqui no site. A Leda me mandou a foto da família, no Natal. Obrigada pelo carinho e amizade de vocês. Um grande beijo e, te parafraseando, muitas saudações vinícolas.

  • Carlos Cabral (author) disse:

    Querida Marielba,

    Fico feliz que tenha gostado, afinal você foi uma das primeiras testemunhas desta minha paixão pelos vinhos e sempre soube me incentivar, portanto:

    Vou em frente!

    Abraços,

  • Marilene disse:

    Olá Mestre Carlos,
    permita-me chamá-lo assim.
    Estou muito no começo no ramo de Alimentos e Bebidas e minha maior deficiência é o meu pobre conhecimento dos vinhos. Vibrei de felicidade depois de encontrar seu site, estou maravilhada!!!
    Parabéns pela forma cativante e apaixonada que você fala e obrigada por compartilhar sua nobre experiência, com pessoas como eu, que apesar de muito interesse pelo assunto, dispõem de pouco recurso para estudar e praticar a enogastronomia.

  • Carlos Cabral (author) disse:

    Cara Marilene,

    É assim mesmo. Quando iniciei meus estudos no mundo do vinho, tinha 19 anos e nada sabia, a paixão foi aumentando e hoje aí estou no lugar que você já me encontrou, o começo é sempre difícil, hoje está bem mais fácil, porque existem informações disponíveis por todos os lados. Então vá em frente, não desista e conte sempre comigo.

    Grato,

    Carlos Cabral

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