Os vinhos do presidente
Com o título acima, a “Revista de Vinhos” de janeiro de 2005, publicada em Portugal, aborda como o Presidente da República de Portugal recebe seus convidados no Palácio de Belém, em Lisboa, e revela como é a adega do palácio.
Sobre esse tema, tenho algumas histórias: quando visitamos um país tradicional produtor de vinhos, logo deduzimos que nos Palácios dos Governos somente “pomadas” especiais são servidas. Ledo engano.
Por questões de bom tom e de protocolo, deve a Presidência da República de qualquer país ser a vitrine cultural de toda a nação. Espera-se encontrar, portanto, todas as gamas de qualidades de vinhos.
Portugal teve presidentes de todos os quilates; uns gostavam de vinhos, outros não. Mário Soares, por exemplo, era um bom gourmet, logo apreciava vinhos; já Antonio de Oliveira Salazar só gostava de vinhos da sua terra natal, o Dão.
O atual presidente, o amigo e confrade Jorge Sampaio, desempenha bem seu papel de anfitrião e sabe oferecer, provar e falar dos vinhos de seu país.
Em setembro de 2002, quando liderei um grupo de dez atendentes de vinhos do Pão de Açúcar a uma visita a Portugal, Jorge Sampaio recebeu-nos por uma hora no terraço do Palácio de Belém. Ofereceu-nos um Porto Vintage Ramos Pinto 1997, acompanhado de um bem maduro queijo da Serra da Estrela. Durante a conversa, perguntou-nos se iríamos ao Douro. Respondi que sim, então passou a contar-nos as maravilhas que veríamos e que vinhos degustaríamos.
Em junho de 2003, fui receber o título de Infanção da Confraria do Vinho do Porto e após a cerimônia de entronização, seguiu-se um banquete no antigo edifício da Alfândega do Porto.
Tive a honra de sentar-me com os confrades Grão-Duque Enrique de Luxemburgo; o presidente de Portugal, Jorge Sampaio; o chanceler da Confraria do Vinho do Porto, o amigo Vito Olazabal; e o presidente da Câmara do Porto.
Seguiu-se um magnífico jantar regado a vinhos espetaculares, dos quais Jorge Sampaio descrevia as características principais ao Grão-Duque Enrique.
Acredito que, nas audiências de Estado, não nos grandiosos banquetes que são servidos no Palácio da Ajuda, o vinho do Porto servido em decanter deve ser um espetacular “quebra-gelo” quando se tem de tratar de assuntos espinhosos, como guerras, política etc.
Vinhos caros são raros na adega da presidência, no Palácio de Belém. Tal é verdade que ficou famosa a recusa de Fernando Nicolau de Almeida, enólogo por 63 anos consecutivos da Casa Ferreira, em vender algumas caixas de Barca Velha para um banquete a ser oferecido à rainha Elizabeth da Inglaterra. O enólogo informou que o vinho ainda era jovem para ser degustado.
Em banquetes de Estado, para não se privilegiar uma só marca de Porto, a Presidência da República de Portugal, bem como as embaixadas portuguesas pelo mundo, oferecem o vinho do Porto Reserva do Instituto do Vinho do Porto, elaborado e engarrafado somente para esse fim.
Quando o presidente brasileiro João Batista de Oliveira Figueiredo visitou oficialmente Portugal, li nos jornais que ele havia sido recebido com um “Porto D’Honra” no Palácio de Belém.
Imediatamente escrevi ao cerimonial do palácio e solicitei uma garrafa para a Garrafeira da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (Sbav) que na altura eu presidia. Passados três meses, um diplomata português que veio ao Brasil representar o Presidente da República em um casamento no Rio de Janeiro desembarcou em São Paulo especialmente para nos entregar a garrafa na antiga sede da Sbav, na rua Cardoso de Almeida.
Na visita de 2002 ao Palácio de Belém, fui surpreendido por um assessor do presidente que quis saber quais os dez vinhos portugueses de minha preferência. Ao citá-los, o assessor anotava seus nomes em um cartão e depois mandou chamar o mordomo do palácio, Jorge Lopes, e entregando-lhe o cartão disse: -providencie estes vinhos para a nossa adega.
É muito bom que tais informações venham à luz, pois é comum acharmos que quem está no poder só vive em regalias.
Ao menos o Presidente da República de Portugal degusta regularmente os vinhos que o seu povo bebe também.
Artigo publicado na revista Vinho Magazine – nº60, ano 6, abril/2005
Saudações Vinícolas!
Parabéns pelo seu site, colega! Não gosto muito de fazer comentários, mas o seu site está muito bom mesmo! Continue com esse bom trabalho!
Deixe um comentário!