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Pisa de um lagar

19 novembro 2008 | por Carlos Cabral | Seja o primeiro a comentar

A pisa de um lagar no Douro, para a elaboração do vinho do Porto, é um dos atos mais bonitos de se ver e participar para aqueles que amam o vinho.
É um trabalho pesado, e muito cansativo, mas o vinho do Porto fez sua história no mundo, nascendo dessa forma. Muito já se fez e se falou desta maravilha, alguns até chegaram a tirar-lhe o romantismo, inventando pisas mecânicas, coisas de ingleses, mas não conseguem e nem conseguirão apagar da memória daqueles que tiveram esse privilégio, que é “cortar” um lagar de uvas.
Miguel Torga, nome adotado pelo médico português Adolfo Rocha, foi um dos maiores poetas. Contista e romancista do século XX de Portugal, ele nasceu na aldeia de São Martinho de Anta, em pleno Alto Douro e viu e sentiu como poucos o que é viver e depender da vitivinicultura dorense.
Cantou em suas obras várias passagens sobre esta arte de zelar e ver nascer o vinho do Porto. Em seu romance “Vindima”, há uma passagem sobre a pisa de um lagar, que é descrita como um ato de amor. Vale a pena conferir ou reler:
“De ai a nada, arregaçados, os homens iam esmagando os cachos, num movimento onde havia qualquer coisa de coito, de quente e sensual violação. Doirados, negros, roxos, amarelos, azuis, os bagos eram acenos de olhos lascivos numa cama de amor. E como falos gigantescos, as pernas dos pisadores rasgavam máscula e carinhosamente a virgindade túmida e feminina das uvas. A princípio a pele branca das coxas, lisa e morna, deixava escorrer os salpicos de mosto sem se tingir. Mas a continuação ia tomando a cor roxa, cada vez mais carregada, do moreto, do sousão, da tinta carvalha, da touriga e do bastardo.
A primeira violação tirava apenas a cada cacho a flor de uma integridade fechada. Era o corte. Depois, os êmbolos iam mais fundo, rasgavam mais, esmagavam com redobrada sensualidade, e o mosto ensangüentava-se e cobria-se de uma espuma leve de volúpia. À tona, a roçá-lo como talismãs, passeavam então os volumosos e verdadeiros sexos dos pisadores, repousados mas vivos dentro das ceroulas de tomentos”
Este texto expressa na visão do poeta, como nasce um vinho logo após a sua pisa.

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