Que Porto é esse?
O regulamento das categorias especiais do vinho do Porto, ditado pelo antigo Instituto do Vinho do Porto, reconhece quatro categorias: Vintage, Late Bottled Vintage ou L.B.V., com Data de Colheita e com Indicação de Idade. Abaixo desses, estão todos os vinhos Porto “correntes”, vinhos com idade média de três a cinco anos, encontrados no mercado em três tipos de cores: Ruby ou Porto jovem, Tawny (vinho com estágio em casco de carvalho) e o White ou Porto branco (jovem que pode ou não passar por carvalho). Tal gama de opções confere ao vinho do Porto uma identidade única.
Esse heróico vinho já passou por tudo. De revoltas à falsificação com mistura de aguardente. De apaixonados negociantes que dedicaram sua vida a produzi-la a loucos desvairados que não tiveram paciência de esperar os três anos mínimos para colocar suas produções no mercado. É sabido que o negócio a cada dia se concentra mais nas mãos de grandes grupos de investidores que só pensam em lucrar, deixando de lado a preservação da imagem desse produto que outros fizeram com zelo e amor nos últimos 400 anos.
O mercado de vinhos está agitado, novidades surgem a todo momento, tem gente que conseguiu alargar a região demarcada de Champagne, outros conseguiram em poucos quilômetros quadrados criar mais de 100 rótulos para o Brunello de Montalcino, passando a idéia de que lá estão plantando uvas até em vaso, e as histórias malucas se repetem.
O vinho do Porto estava ileso a isso tudo, e se mantinha fiel ao conceito de tradição como seu bem maior, até que surgiu um vinho do Porto Pink! Por etapas, vamos a esse “estranho no ninho”. A legislação vigente não tem e nem reconhece essa categoria, porém o vinho ostenta garbosamente o selo de autenticidade conferido pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. Menos mal, mas de quem foi a decisão de aprovar tal categoria?
A marca desse Pink é Croft. Agora, tremi as pernas! Como pode uma casa do mais alto e renomado prestígio lançar um rótulo intitulado do Porto nessa categoria? Pobre John Croft – deve ter rolado no túmulo! A Casa Croft foi fundada por John em 1736, e ganhou grande notoriedade quando seu fundador escreveu um tratado sobre os vinhos de Portugal em 1788. Na época, uma obra-prima.
Essa casa sempre se destacou na elaboração de grandes Vintages e, a partir de 1875, adquiriu de John Fladgate a emblemática Quinta da Roêda que, de tão espetacular, inspirou uma frase: “Se o Douro fosse um colar, a Roêda seria sua pérola maior”. Estive algumas vezes na Roêda e até vi algumas videiras pré-philoxera cultivadas. De fato, constatei in loco a superior qualidade dos vinhos Porto da Casa Croft.
Após marchas e contramarchas, a Croft foi adquirida pelo grupo Quinta and Vineyard Bottlers, possuidora também das marcas Taylor’s, Fonseca e Delaforce. O competente e consagrado enólogo David Guimarães, pai dos mais renomados Vintages e LBV s da Casa Fonseca, herdou de seu pai, o saudoso Bruce Guimarães, toda a competência para elaborar Porto irrepreensíveis.
Até ai tudo bem, mas e o vinho, como ficou?
Em um evento sobre o Douro e Porto, realizado recentemente em São Paulo, o confrade Guilherme Rodrigues ofereceu uma garrafa para os presentes degustarem a novidade. O vinho não tem características do Porto. Mesmo com o álcool de 19,5 graus, sua doçura é enjoativa. Por não ter nada a ver com um Porto, a não ser o selo do IVDP e o nome na garrafa, passaria bem por um suco de groselha com álcool.
Só desejaria que o Porto fosse mais respeitado. Pelo mundo afora, esse vinho já é diariamente vítima de falsificações grosseiras. Mas dentro de casa? Valha-me Deus!
Artigo publicado na revista Prazeres da Mesa – nº 61, julho/2008
Saudações Vinícolas!
Que me desculpem os criadores mas de vinho do Porto, o acima comentado por Sr. Carlos Cabral, só tem o teor alcoólico; seria mais respeitoso com todos, se antes fizessem uma pesquisa com os grandes colaboradores da própria marca, incluindo os grandes criticos dos quais muitos tenho grande respeito.
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