Senhores, respeitem o vinho!
Quando um assunto desperta paixão e mexe com o lado sensível das pessoas, é comum ocorrer exageros, discussões acaloradas e defesas contundentes dos diferentes pontos-de-vista. Ultimamente, temos encontrado uma enxurrada de desrespeitos ao vinho e consequentemente àqueles consumidores apaixonados e àqueles mais bem informados.
Veio à tona na Vinitaly, em abril, o escândalo dos Brunello di Montalcino. Escândalo anunciado, pois basta saber um pouco de geografia e ter a mínima noção de espaço para concluir que é impossível produzir numa simples colina tantas marcas de uma mesma denominação de origem. Nem plantando uva em vaso se obtém tal façanha!
Também emergiu, tempos atrás, outro escândalo envolvendo o “papa do vinho”, o crítico americano Robert Parker, e seus comandados, que “supostamente” cobravam propina de produtores para falar bem de seus vinhos. Já confessei de público que não confio nesse tipo de trabalho que o sr. Parker faz e divulga, mas se milhões o seguem, quem sou eu para enfrentar esse leão?
Confirmei tais impressões, ao participar de duas provas de vinhos no Alentejo, em 2007, quando encontrei o “provador oficial” de Parker, na Quinta da Malhadinha e na Herdade dos Grous. Esse senhor em tudo se assemelhava a um iceberg: grande, incolor e frio. Troquei três impressões com ele durante o almoço, e nenhuma resposta ou um sorriso sequer. Julguei estar diante, talvez, de um “semideus do vinho”. Alvoroçados, os produtores alentejanos procuravam saber de sua agenda. Afinal, uma nota 89, significaria 1.000 caixas; 90 pontos, 2.000 caixas; acima de 90, então, ninguém poderia imaginar para onde as vendas iriam. Só Deus.
Um grande produtor português, em visita a São Paulo, anos atrás, me disse que alavancaria suas vendas naqueles idos, pois seu agente americano o convencera a anunciar na Wine
Spectator. Quando o alertei que os anúncios deveriam ser republicados para que tivessem algum retorno, ele me disse que bastariam só dois, pois na edição posterior, seus vinhos entrariam em prova. E pasmem: foi “acertado” que nenhum receberia nota inferior a 86 pontos! Além de engolir esse sapo, guardei essa indigestão por 16 longos anos.
Mas guardei-a para esse dia, em que o mundo do vinho é novamente sacudido por uma bomba. Trata-se do escândalo em que a revista Wine Spectator está hoje envolvida. Seu concurrso anual de restaurantes premia e recomenda as melhores cartas de vinho do mundo. Nada mais justo e sadio, se tal competição fosse organizada e gerida com total independência e rigor. Em vez disso, porém, os 4.500 estabelecimentos inscritos tiveram de pagar a quantia de 250 dólares para participar da contenda.
Um jovem enólogo americano, Robin Goldstein, de um restaurante de Milão, registrou uma carta recheada de rótulos medíocres, segundo a avaliação da própria Wine Spectator – e pasmem, foi premiado! Em depoimento a uma revista brasileira de grande circulação, em sua edição de 6 de outubro, o rapaz declarou: “A ideia era desmistificar especialistas e concursos enológicos que ditam o que é melhor para o consumidor”. Esse recado, curto e grosso, deve ser analisado com clareza e prudência.
Em se tratando de Brasil, qualquer publicação do gênero deve ter a preocupação de bem informar mas também, acredito, a de estimular o consumo de vinho, fazendo com que o leitor desperte para o prazer de comer e beber bem, já que afinal o país ainda engatinha nesse assunto. Seja como for, os fatos acima revelam que tais expedientes deveriam ser revistos por seus protagonistas, já que cada um deles há anos vem dando sua contribuição ao mundo de Baco.
Por favor, senhores, respeitem o vinho!
*Texto publicado na revista Prazeres da Mesa em novembro de 2008, nº65
Saudações Vinícolas!
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