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Um ano de comemorações

17 outubro 2008 | por Carlos Cabral | Seja o primeiro a comentar

Iremos comemorar no próximo 10 de setembro os 250 anos da criação da Companhia Geral da Agricultura do Alto Douro que, dentre tanto que fez, demarcou geograficamente a região vinícola do Douro.
Nos estudos clássicos da história do vinho, esse fato dá a Portugal a primazia de ter criado a primeira DOC (Denominação de Origem Controlada) do mundo, mas a criação dessa companhia foi muito mais do que uma simples demarcação. Trata-se de fato isolado da história de Portugal, cujas conseqüências positivas e negativas anrastam-se até os dias de hoje.
Devido ao comércio desenfreado de vinhos produzidos no Alto Douro e vendidos aos ingleses, instalou-se na região uma verdadeira “corrida do ouro”, no sentido de quem ganharia mais. O Douro era uma região paupérrima, e o comércio de vinhos, iniciado com os ingleses por volta de 1625, deu um grande impulso progressista à região. Seus habitantes puderam sonhar com dias melhores.
Entretanto, a ganância dos dois lados, dos comerciantes ingleses e dos produtores de vinhos, estava levando a produção e o comércio vinícola à desgraça, em 1750. Os preços baixaram muito, a Inglaterra voltou a se abastecer de vinhos franceses e a qualidade do vinho duriense caiu muito. Os dois setores envolvidos trocavam acusações constantes: os produtores de vinhos diziam que os ingleses não sabiam o que queriam, porque uns exigiam vinhos com mais aguardente e outros queriam mais cor; e os ingleses acusavam os produtores de adicionar cascas de sabugueiro aos vinhos do Douro para aumentar a cor e de usar aguardente de péssima qualidade.
O então recém-nascido Vinho do Porto estava diante de uma crise que parecia não ter fim. Foi então que um frei dominicano, João de Mansilha, e dois comerciantes de vinhos idealizaram uma companhia estatal para disciplinar a produção e o comércio do Vinho do Porto. Levada a proposta até o poderoso Marquês de Pombal, que acabara de criar a Companhia do Grão Pará, houve apenas tempo para Mansilha colocar as idéias no papel. No dia 10 de setembro de 1756, foi anunciada solenemente a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro.
Um diploma com 53 artigos organizava e dava todas as instruções básicas para o funcionamento da companhia. Dentre os artigos 19 referem-se exclusivamente ao Brasil, e ao comércio de vinhos conosco, que havia passado a ser privilégio da companhia. No decorrer deste ano, vou abordar diversos temas relativos a essa efeméride, que celebraremos em 2006. O objetivo é que todos possam tirar as próprias conclusões sobre a atuação da companhia e suas conseqüências na vida do Vinho do Porto até os dias de hoje.
Vale destacar que ainda não surgiu no mundo do vinho nada que se compare a companhia que chegou a ser considerada “um Estado dentro do Estado português”. Essa fascinante história iremos contar em detalhes até dezembro.

Artigo publicado na revista Vinho Magazine – nº66, ano 8, 2006

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