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Um novo nome para uma região antiga

26 julho 2010 | por Carlos Cabral | Seja o primeiro a comentar

Como um divisor de terras, o Rio Tejo, que é o principal rio da Península Ibérica, nasce na Espanha no Cerro de San Filipe, em Fuente Garcia, a 1593 metros de altitude. Corta grande parte do território espanhol e deságua com todo o seu esplendor em frente a Lisboa antes de se juntar ao Atlântico.

Desde os povos lusitanos que habitavam o que hoje conhecemos como Portugal, o Rio Tejo e o seu caudal de águas são um divisor de terras, capaz de identificar em segundos a origem das coisas e das gentes de suas margens. Alentejo é toda a área que fica abaixo do rio, Ribatejo é o que fica acima.

Em tempos minimalistas e na era das informações mais compactas, explicar isto ao mundo é um pouco demorado. Assim sendo, a região produtora de vinhos localizada acima e em torno do rio trocou o nome de Ribatejo para simplesmente Tejo. Isso é compreensível, já que o famoso nesta história é de fato o rio.

Berço de bons vinhos desde a Idade Média, a região hoje chamada de Tejo é composta por três zonas vinícolas distintas, que agem com muita influência no resultado de seus vinhos.

A Zona do Bairro, que se localiza na margem direita do rio, tem solo argilo-calcários. A pequena área xistosa perto de Tomar e toda essa Zona é dominada pelo cultivo de oliveiras e videiras.

A Charneca, já na margem esquerda do rio, tem solo arenoso não muito fértil, o que gera um baixo rendimento na produção de uvas, mas que dá origem a vinhos brancos de grande qualidade.

A Lezíria, formada por extensas e belas planícies junto ao Tejo, está sempre sujeita a inundações do rio, fato que provoca uma grande fertilidade nessa zona, lembrando o lendário Nilo no Egito.

Pode-se afirmar que esta Região é um imenso laboratório enológico de Portugal porque, além das tradicionais castas portuguesas, as castas internacionais como Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Sauvignon Blanc, Viognier e Chardonnay encontram aqui uma boa morada.

Em recente visita à região, organizada pela Comissão Vitivinicola Regional do Tejo, pude conhecer diversos produtores que vêm a cada dia se empenhando ativamente em apresentar ao mercado vinhos de gosto internacional, mas que no fundo tenham um toque de modernidade portuguesa, apresentando suas uvas emblemáticas nos chamados vinhos “pronto a beber”.

Iniciei a visita com a Sociedade Agrícola João Barbosa. Instalação pequena, mas moderna, com arquitetura arrojada e uma deslumbrante paisagem de vinhedos aos seus pés! O simpático proprietário deu para provar a linha de vinhos Ninfa, na qual se destacou um Syrah de ótima qualidade. O produtor informou que está cultivando Pinot Noir em uma área de muito calcário em Rio Maior. Vamos aguardar esta surpresa chegar ao mercado.

Seguiu-se uma visita à Quinta Casal da Coelheira, propriedade familiar que já está na terceira geração, e cujas instalações voltadas para um pátio interno dão a impressão de estarmos em casa. Está às margens do Tejo, com250 ha de vinhas são cultivadas.

Os grandes destaques de lá são os vinhos Mythos 2005 e o Quinta do Casal da Coelheira Reserva 2007, ambos tintos. O primeiro é um robusto corte em proporções idênticas de Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon, com 14% de álcool, dando origem a um vinho rico e untuoso. O segundo vinho tem estágio de 8 meses em madeira e as mesmas uvas que o primeiro, só que é mais elegante e tem retrogosto persistente.

Na povoação de Outeiro, a 8 km de Tomar, encontramos a Vinícola Encosta do Sobral, uma Casa familiar que possui 70 ha de vinhedos próprios e produz os vinhos Encosta do Sobral, vinho regional tinto e branco e o Reserva, este ultimo um bem elaborado vinho oriundo das castas Trincadeira, Touriga Nacional e Touriga Franca. As notas mentoladas de seus aromas são o seu maior destaque. O vinho branco de Fernão Pires, Arinto e Malvasia é uma agradável companhia para as entradas.

Uma Casa já bastante conhecida veio em seguida, a Fiuza e Bright, uma bem sucedida parceria formada em 1985 entre a Família Fiuza e o renomado enólogo australiano que se encantou com Portugal, Peter Bright. De início, provei o Sauvignon Blanc que apresentou aromas de frutas tropicais bem sutis, ao contrário dos vinhos da mesma cepa cultivada na Nova Zelândia e no Chile, mas com uma acidez invejável, uma agradável surpresa.

Depois foi provado o 3 Castas, vinho com Fernão Pires, Chardonnay e Arinto, casamento que não decepcionou mesmo com potencia de seu álcool de 14%. O Fiuza Merlot 2008, com estágio de seis meses em barrica, foi a grande surpresa, com os seus aromas de ameixa madura. Para encerrar o IKON 2007, 100% Touriga Nacional, um vinho DOC, com seleção manual dos bagos, fermentação longa e oito meses de barrica. Com uma produção de apenas 10 mil garrafas, este vinho com fortes aromas de especiarias é o ícone da Casa.

Na Quinta da Alorna, uma vastidão de terras cultivadas ao pé da cidade de Santarém, em um frondoso e romântico palacete de muitas histórias, o abraço do amigo antigo Nuno Cancela de Abreu nos aguardava. Esta Quinta é repleta de histórias desde sua origem, em 1723. Dom Pedro de Almeida, o 1° Marques de Alorna, adquiriu a propriedade e lhe deu o nome da mesma Praça Forte que ele conquistou na Índia. São 2.800 ha de exuberância total, onde 220 ha de vinhas cultivadas na Charneca formam o nascedouro de grandes e emblemáticos vinhos.

O Touriga Nacional e o Cabernet Sauvignon 2007 criados por Martta Simões e Nuno Cancela de Abreu produziram 40.000 garrafas dessa jóia. Após dois dias de maceração pelicular e fermentação, o vinho repousou por 12 meses em carvalho francês, e foi colado com claras de ovos antes do engarrafamento. De cor púrpura e álcool de 14%, o vinho tem uma explosão de aromas marcantes de frutas maduras e especiarias (cravo). A surpresa foi o Quinta da Alorna Colheita Tardia 2007, elaborado com 100% de Fernão Pires. Vinho com 130 gr de açúcar, tem a virtude de não ser enjoativo e sua acidez é correta, um bom companheiro para os queijos azuis.

A Quinta do Casal Branco foi fundada em 1775 e está localizada em Almerim, em plena Lezíria onde, em 1.100 há, produz vinhos, outros produtos agrícolas e cria cavalos de puro sangue lusitano. Como as antigas caçadas reais com falcões eram comuns na propriedade, os vinhos emblemáticos da Casa recebem o nome de Falcoaria. O vinho Falcoaria Reserva Tinto DOC 2007, oriundo de seis cepas cultivadas na propriedade, de videiras com 80 anos de idade (Castelão, Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional, Petit Verdot e Alicante Bouschet), tem fermentação em lagares tradicionais, além de um estágio de 12 meses em barricas francesas novas. O aroma de côco é marcante e na boca é um veludo! Já o vinho Casal Branco de Fernão Pires tem aromas de lima da Pérsia marcante.

Na quinta da Ribeirinha, outra Casa familiar localizada na Póvoa de Santarém, 40 ha de vinhas dão origem a diversos vinhos como o Espumante Vale de Lobos, produzido exclusivamente com a casta João Pires pelo método tradicional. Tem um perlarge fino e duradouro, e seu aroma tem um toque delicado de maçã. O vinho tinto Vale de Lobos 2007 já é um DOC, que nasceu das castas Castelão, Trincadeira Preta e Tinta Roriz têm uma excelente cor ruby brilhante, taninos bem presentes, mas agradáveis e aromas de frutas vermelhas.

Na pequena Vila Chã de Ourique, onde o tempo parece que fez morada, um imponente e ambicioso projeto eno-turístico foi montado, chama-se Vale D’Algares. Vou falar só dos vinhos, a hotelaria fica para outra vez.

Trata-se de um projeto voltado somente para vinhos super Premium, já se nota isso quando se visita a adega. O projeto arquitetônico ousado nos remete à Austrália, Mendoza, Napa etc. Pirâmides de vidro convivem com barricas e garrafas. A cada corredor encontramos uma surpresa, até chegarmos à sala de Provas que, creio eu, deve ter sido inspirada no filme “2001, Uma Odisséia no Espaço”, tamanha beleza e leveza de detalhes modernos. Tudo o que se vê é de tirar o fôlego, até os vinhos!
Provei o Vale D’Algares Branco, 100% Viognier. Um vinho estupendo, uma obra de arte! Há também um colheita tardia e uma linha de vinhos superiores branco, tinto e rose chamada Guarda Rios.

Por último, uma visita à Quinta Vale de Fornos, onde a história se faz presente a todo momento. A propriedade, uma imponente casa senhorial, com capela privada e Brasão D’Armas, de cor vermelha atijolado, foi mandada por Dona Antónia Adelaide Ferreira, a “ferreirinha” rainha do Douro, para abrigar sua filha pelo casamento desta com o 3° Conde de Azambuja. Hoje, a Casa vinícola lá instalada é dirigida pela simpática Senhora Graciete Monteiro. Com 70 ha de vinhedos implantados em solos férteis argilo calcáricos, a casta João Pires fez lá a sua morada e dela bons caldos nascem todos os anos. Já os vinhos tintos das cepas Castelão e Trincadeira de Portugal e as internacionais Cabernet Sauvignon e Syrah, harmonizam-se muito bem quando se fala de vinho tinto.

Os vinhos desta Região prometem marcar forte presença no Brasil, doravante são uma excelente opção de novos vinhos a serem provados.

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