Um Porto Vintage para não esquecer
Não serei eu a discordar da classificação dos Portos Vintage do século XX, aliás, concordo em gênero, número e grau, que os anos de 1904, 1912, 1927, 1945, 1963, 1977, 1985, 1994, 1997 e 2000 são realmente obras de Deus.
Vinhos bem nascidos, bem criados e bem servidos, quando temos o privilégio de degustar, como se diz em Portugal, “estas pomadas”…
Do 1904 lembro-me de um degustado no ano de 1984 na Sandeman, na companhia de um antigo enólogo da casa, com o mesmo nome que eu, Cabral. Estava vivo, parecia um ruby com um pouco de idade, não havia perdido muito de sua cor ruby intensa, quando de seu nascimento.
O ano de 1912 foi provado no último dia 17 de abril, na casa de um jovem amigo, que aos 20 anos aprendeu a gostar de Vinho do Porto, devido as suas constantes visitas a antiga Casa Cabral, nos Jardins , em São Paulo.
Marcos Kitano e esposa receberam Leda e eu para um jantar e no final, o Vintage Porto 1912 da Cockburn’s. Estava um “old Tawny”, o tempo lhe foi generoso, embora com uma cor topázio queimado, as frutas vermelhas maduras estavam presentes, e no final do cálice um leve toque de fumado se fazia presente. Foi degustado solenemente com uma torta de amêndoas, e brindado com os cálices ao alto e honra de Antonio Graça, que por mais de 40 anos trabalhou na Cockburn’s, e até hoje é alma dessa Casa de origem inglesa, mesmo não mais trabalhando nela.
O Vintage 1927, chamado de “um clássico” pelo mundo do Vinho do Porto, já tive mais sorte, pude degustar alguns rótulos como, Taylor’s, Quinta do Noval, Niepoort e Croft. Todos insuperáveis, mas o da Casa Borges é o que fez história comigo. Este era o ano de nascimento do querido amigo João Caldas, carinhosamente chamado por nós todos da SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) de Tio João, devido a ser o único entre nós a ter uma enorme cabeleira branca. Tio João, um Lord em todos os aspectos, adquiriu algumas garrafas dessa preciosidade, e deu-me a honra de abrir algumas delas, que eram solenemente degoladas, com a tenaz quente, filtradas, decantadas e servidas para o nosso deleite. Mesmo após a sua morte, a família do tio João me deu a honra de partir a penúltima garrafa do acervo, no ano de 2007, ano em que Tio João completaria 80 anos.
O Vintage 1945, considerado por muitos como a “Jóia da Coroa”, tem seu valor sentimental elevado, por ser o ano do fim da 2° Grande Guerra Mundial. Aqui provei o Fonseca, uma lenda neste assunto, Vintages de superior qualidade é com essa gente. O amigo Bruce Gumarães entendia muito desse assunto e felizmente seu filho David, puxou ao pai. O vinho estava ótimo, mas o Vintage 1945 marcante foi um Ferreira que o Sr. Fernando Moreira Paes Nicolau de Almeida, o célebre enólogo da Casa Ferreira, por 63 anos consecutivos e criador do Barca Velha, presenteou ao meu amigo e confrade Paulo Milagres Jr., quando este acompanhava um grupo de enófilos da SBAV a uma visita ao Douro e Porto no ano de 1989.
Nesse mesmo ano, outro bom amigo, o Sidney Rodrigues também ganhou uma garrafa de Vintage Ferreira 1945, como Prêmio máximo por seu excelente trabalho à frente da gerência de vendas da importadora Aurora. Ambos, Paulo e Sidney são nascidos em 1945. O Paulo Milagres logo profetizou: A minha garrafa você irá abrir no aniversário dos meus 60 anos!
Tivemos paciência, Paulo e eu soubemos esperar. Foi uma solenidade e tanto, com a família reunida, inclusive sua mãe estava presente. Paulo deu-me a honra de partir o gargalo, de decantar e iniciou-se o serviço, com duas opções de gastronomia. Ana, esposa do Paulo, caprichou na torta de amêndoas, e um solene Queijo da Serra da Estrela nos acompanhou na hora deste sacrifício.
O Vintage 1963 já teve 28 declarações, ou seja, 28 Casas produtoras de Vinho do Porto tiveram seus Vintages aprovados pelo Instituto do Vinho do Porto. Provei várias marcas, inclusive a da Casa Poças Junior, que embora existisse desde 1918, seria o segundo ano em que a Casa declarava um Vintage , o primeiro foi em 1960. Não provei os 28 Vintages, mas tem um que não sai da memória, o Noval Nacional 1963.
Toda a expressão de qualidade superior que se espera de um Porto, estava naquele vinho. Chega a ser indescritível se quiser enumerar a quantidade de predicados que essa maravilha tem.
Se alguém julgar que merece um prêmio extra nesta vida antes de partir dela, peça um Vintage Noval Nacional 1963, e depois morra em paz!
O ano de 1977 também foi farto de Declarações. Aqui um Niepoort, degustado com Rolf Niepoort em 1982 foi um “must”. Estava muito jovem e os consumidores dos Estados Unidos da América estavam se revelando grandes admiradores em degustar Vintages jovens, deixando para os ingleses a façanha de degustar Portos Vintages, sempre com mais de 30 anos. A onda pegou e hoje os americanos são os reis do Vintage jovem, e os ingleses, delicadamente os chamam de “infanticidas”!
Deste ano recordo-me de ter degustado um da Casa Messias, na casa do amigo e confrade Armando Reis, vinho também de grande e boa memória. Desse ano de 1977, também degustei um Real Companhia Velha em outubro de 1982, em um almoço na sede da empresa em Vila Nova de Gaia, na companhia do saudoso amigo Augusto Pinto Soromenho Junior, a quem muitos anos mais tarde dediquei a minha glamorosa coleção de 8.000 mil rótulos de Vinho do Porto.
O ano de 1985 bateria o record de Declarações, 45 ao todo. Daqui já tive a oportunidade de passear por Ramos Pinto, Poças, Ferreira, Kopke, Taylor’s, Cálem, Ferreira, Warre, Burmester, Rozes, Quinta do Crasto, Borges, Messias, Sandeman e Churchill, Croft, Delaforce e Quinta da Romaneira.
Todos, como foram degustados jovens, eram mais parecidos com um grosso caldo de framboesa e ameixas maduras. O futuro desse vinho, que é agora, começará a dar o ar de sua graça em provas por todo o mundo.
O ano de 1994 teve o efeito de uma bomba atômica.
O mundo curva-se aos pés do Vinho do Porto, porque a prestigiada revista americana “Wine Spectator” dá nota 100 a dois grandes Vinhos do Porto Vintage 1994, o Taylor’s e o Fonseca. Quase todas as Casas declararam 1994 um ano Vintage. Os preços dobraram graças a esta publicidade, mas nada ocorreu de anormal, de fato todos os Porto de 1994 valiam, e valem, o quanto pedem. É uma obra de arte, que também encontramos dificuldades em descrever esta verdadeira joia.
Quem puder, corra e prove logo este vinho, será um grande presente a sua alma.
Quanto ao ano de 1997, a natureza foi sábia. Deu tudo igual a safra de 1994, ou seja outra jóia, idêntica a 1994. Caso raro de acontecer no mundo deste vinho, uma sequência que foi um presente dos deuses aos apaixonados por este vinho.
Dos anos de 1994 e 1997, tive o privilégio de provar todos os Vintages que foram declarados. Não vou destacar nenhum, porque a qualidade aqui foi homogênea, o Douro todo foi premiado com grandes vinhos, os enólogos só tiveram o trabalho de mandar colher as uvas e fazer o vinho, o resto, a natureza deu.
Já o ano de 2.000 foi emblemático. Já escrevi muito sobre isso e em palestras que faço digo e repito: Ninguém pode abandonar a vida terrena antes de tomar o Noval Nacional Vintage 2.000. Parafraseando o velho negociante inglês de Vinho do Porto, que no século XVI disse: Se não fosse estragar, o beberia com lágrimas!
Meu deus! Que vinho é esse. Tive a honra e o privilégio de em 120 minutos degustar quase 1,5 litros desse vinho, sozinho, em canto solitário do Palácio da Alfândega no Porto, quando ao final de uma prova 23 jornalistas europeus se levantaram e se retiraram da sala.
Para espanto do enólogo da Quinta do Noval António Agrellos, mandei que os garçons recolhessem todo o vinho que havia sobrado nos cálices dos 23 jornalistas e colocassem em um decanter. Então, calma e pacientemente, como um monge tibetano, fui me servindo desse néctar, até não ter gota alguma no decanter. Entrei em estado de graça, porque um vinho desse não embebeda, só eleva o espírito à Deus.
No próximo mês de setembro irei comemorar 40 anos que estudo o Vinho do Porto, já lhe dediquei um livro, e dentro de 3 meses estará nas livrarias outro livro em sua homenagem. Tenho 440 livros sobre o Vinho do Porto e uma coleção de 8.000 rótulos, fora toda a literatura promocional que as Casas produtoras desse vinho produzem para distribuir ao mercado, o que soma uma montanha de papel. Já estive na cidade do Porto 34 vezes, desde o ano de 1982, e também tenho o grau máximo da Confraria do Vinho do Porto, lá sou Infanção.
Confesso publicamente: O Vintage Noval Nacional 2.000 foi o melhor Vinho do Porto que bebi em meus 59 anos de vida! Só peço a Deus que me dê outra oportunidade de degustar essa relíquia, depois pode me convocar, subirei ou descerei sorrindo!
Saudações Vinícolas!
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