Um toque de classe
Harmonizar vinhos do Porto com queijos especiais não-portugueses foi o desafio que encarei de frente em dezembro do ano passado, no Hotel Unique Garden, em Mairiporã, SP.
Participaram desse doce exercício alguns hóspedes do hotel, cercado de bosque nativo na Serra da Cantareira. Com arquitetura de Ruy Ohtake e decoração mística com toques orientais, 50 hóspedes podem desfrutar de infra-estrutura única, sem contar a gentileza e fidalguia dos funcionários.
Envolto por esse cenário, realizei uma palestra sobre a harmonização entre vinhos do Porto e queijos diferentes. Foram escolhidos Portos brancos secos, Tawny Especial, Tawny 20 anos e Vintage 2000. Preferi de uma só marca, a J.W. Burmester, para mostrar aos participantes o que é o perfil de uma casa de Vinho do Porto.
Os queijos especiais selecionados foram Brie, Camembert, Fol Epi, Emmenthal, Rambol Noise, Manchego Paese e Gorgonzola Dolce, importados pela Aurora.
Tradicionalmente, os vinhos do Porto Ruby, leia-se aqui os LBV e os Vintages novos, são degustados em Portugal acompanhando o queijo da Serra da Estrela, objeto de desejo de quase todo mortal, devido a suas qualidades e história única. Os Vintages mais velhos, à moda inglesa, são apreciados com o queijo de mofo azul Stilton, que tem textura amanteigada e sabor ligeiramente adocicado.
Nessa experiência, provamos o Vintage 2000 com o tradicional queijo Manchego Paese espanhol e com um Gorgonzola Italiano Dolce. Ambos portaram-se bem na degustação e o Vintage novo, com toda a tradicional explosão de frutas vermelhas maduras, com destaque para as framboesas, deu uma sensação de plenitude ao palato, com uma longa permanência no retrogosto.
Os Porto Tawny, no caso o Jockey Club, antigo e emblemático vinho da Casa Burmester, com oito anos de idade, foi acompanhado por dois queijos de massa amarela, semiduros, também com retrogosto levemente adocicado, o Fol Epi e o Emmenthal. Tratam-se de queijos delicados quando maturados, pois o adocicado se destaca.
Para acompanhar o Porto Tawny 20 anos, de aromas a baunilha e frutas secas, o queijo Rambol Noise foi a pedida. É um queijo processado com pedaços de nozes que fizeram a alegria dos convivas. É tido e sabido que os Portos com denominação de idade 10, 20, 30 ou 40 anos são os companheiros das sobremesas a base de frutas secas, ou até das frutas degustadas in notura. Nesse caso, associado a um queijo de massa mole, também levemente adocicado, foi fiador de um casamento perfeito.
No principio do evento, degustamos um vinho branco alsaciano, o Riesling Trimbach Reserva 2002 que, com sua acidez pronunciada, acompanhou soberbamente um queijo Brie maturado, já com aromas de amônia em destaque. Para acompanhar um Camembert igualmente maturado, escolhemos um Porto Branco seco, que se contrapôs com galhardia e resistência a essa experiência.
Acredito que tenhamos obtido sucesso nessa empreitada, pois os convivas aprovaram a idéia, e depois dessa experiência, dispensaram o jantar programado, para não perder o gosto que perdurava na memória.
Para mim foi um novo prazer ver o Vinho do Porto mais uma vez portar-se como um lorde ao lado de tantas iguarias.
Artigo publicado na revista Vinho Magazine – nº65, ano 8, setembro/2005
Saudações Vinícolas!
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