Um trio de ouro
Junte três ingredientes de primeiríssima qualidade que o produto final irá, certamente, ser uma obra de arte.
Refiro-me a novos vinhos, rótulos privados do tradicional restaurante português Antiquarius.
A união do restaurante com o enólogo Paulo Laureano e o importador Manuel Chicau, da Adega Alentejana, fez surgir três vinhos de alta qualidade.
Para entender essa união, vamos a um pouco de história. Há 15 anos foi inaugurado em São Paulo o restaurante Antiquarius. Com uma decoração sóbria, pois o restaurante é também um antiquário, os convivas podem até hoje desfrutar da companhia de inúmeras obras de arte e documentos antigos que fazem parte da decoração rotativa do local.
Todas as peças expostas estão à venda, mas elas não são as únicas obras de arte do restaurante. O forte é a culinária lusitana de alta linhagem apresentada. Sem apostar em uma única estrela, da cozinha ao atendimento, os funcionários em conjunto formam uma constelação única. Ninguém brilha mais que o outro; todos formam um equipe afinada, o que na minha opinião é o grande fator de sucesso da casa.
Um cardápio espetacular, em que a Açorda de Bacalhau com os coentros ao ponto é o destaque da entrada. O Arroz de Pato, passando por Bacalhau à Lagareira, Favas e Cataplana de Frutos do Mar, fazem parte de um tradicional menu luso, rico em sua elaboração e na generosidade da porção.
No final da refeição, uma coleção de sobremesas, todas típicas de Portugal, é apresentada aos clientes -fica difícil recusar alguma. Destaca-se um Toucinho do Céu que, com um pouco de Vinho do Porto derramado por cima, atinge níveis de delírios gastronômicos.
Assim tem sido nos últimos 15 anos, quando Carlos Perico, proprietário do restaurante homônimo no Rio de Janeiro, resolveu vir para São Paulo. Sua filha, Maria Eduarda, e seu genro, Thales de Almeida Martins Filho, ocupam-se da administração do restaurante paulistano.
Com uma carta de vinhos invejável e uma venda também digna de registro, a família Perico resolveu ter um vinho de rótulo privado, que pode ser consumido in loco ou adquirido no restaurante e levado para casa. Antes de mais nada, tinha de ser um vinho alentejano, terra de grandes vinhos e berço de Carlos Perico. Para tal, bateram em porta certa, a da Adega Alentejana.
Essa jovem importadora, com oito anos de mercado, deu uma nova cara ao vinho de Portugal no Brasil. Apresentou o Alentejo ao consumidor brasileiro e, nesse curto espaço de tempo, vendeu mais de 1 milhão de ganrafas de vinhos alentejanos. O proprietário Manuel Chicau, alentejano de nascimento e brasileiro de coração, esbanja simpatia e amizade. Trocou a engenharia pelos vinhos e investiu em um conceito que parecia perdido, a recuperação da imagem dos vinhos tintos de Portugal, que andavam perdendo terreno para os tintos da Itália.
As tradicionais marcas portuguesas, sensivelmente desgastadas por questões de qualidade ou troca de importadores, cederam espaço a um vinho mais jovem e moderno, pronto a beber. Assim é o vinho alentejano, que felizmente chegou até nós com uma oferta de dezenas de rótulos.
O projeto para a criação de vinhos entre a importadora e o restaurante já estava acertado, mas restava escolher o enólogo que elaboraria esse vinho. Felizmente o Alentejo tem revelado grandes talentos nesse assunto. Jovens enólogos, que provocaram uma revolução, tiveram coragem de experimentar as mais modemas práticas enológicas e acabaram apresentando uma face moderna e descontraída de um Portugal tão tradicionalista em vitivinicultura.
Nada menos que Paulo Laureano foi o escolhido. Na edição 62, nestas páginas, falei do trabalho desse competente enólogo, de quem tanto gostamos de estar junto, para absorver seus ensinamentos e degustar suas obras de arte.
Para o Antiquarius, Paulo criou três vinhos. O Colheita 2003, 50% Trincadeira e 50% Aragonês, elaborado e adormecido em carvalho novo fornecido pelas duas mais importantes tanoarias da França, a Seguin Moreau e a Boutes. Esse vinho é complexo, pois alia aromas e sabores de muita fruta venmelha madura e taninos completamente macios.
O vinho Escolha é 70% Aragonês e 30% Alicante Bouschet. Mais delicado que o primeiro, tem também uma boa presença de boca.
O Reserva, com 60% de Alicante Bouschet e 40% de Aragonês, é estagiado somente em barricas da tanoaria Seguin Moreau. Tem aromas pujantes de menta e eucalipto.
Os vinhos serão oferecidos no restaurante Antiquarius a preços que vão de R$ 151,00 a R$ 290,00.
Uma curiosidade: o consumidor só saberá os cortes das uvas de cada vinho após a retirada da rolha, que leva grafados os nomes das variedades.
Essa feliz união é bem vinda, e mostra o trabalho sério e competente que todos os envolvidos vêm apresentando há muito tempo. Espero que essa iniciativa não fique somente nos três vinhos. Esperemos pelo futuro.
Artigo publicado na revista Vinho Magazine – nº64, ano 7, agosto/2005
Saudações Vinícolas!
Deixe um comentário!