Um vinho de bigodes
No passado, o bigode era considerado um ponto importante na personalidade. Indicava respeito, maturidade e seriedade. Lembro-me do bigode de meu avô, um português sisudo, de pouca conversa. Quando casei-me com Leda, com 21 anos de idade, deixei bigode, aliás um ralo bigode, só para parecer mais velho. Foi uma tragédia.
Assim como o célebre bigode de Salvador Dali, que acabou transformando-se em sua marca registrada, no mundo do vinho existe um bigode que está fazendo um grande sucesso. Aproveito esse gancho do bigode, para falar do simpático e competente enólogo português Paulo Laureano, o “mago do Alentejo”.
Paulo Laureano tem visitado o Brasil com boa freqüência, o que nos dá a alegria de estar com ele e aprender coisas novas, ligadas ao mundo do vinho alentejano.
Nascido em Alter do Chão, no Alentejo, em 1966, esse jovem de 39 anos tem sob sua responsabilidade dar vida e criar ícones na moderna história da vitivinicultura portuguesa. Oriundo da Escola de Engenharia Agrícola da tradicional Universidade de Évora, Paulo tem hoje sob sua responsabilidade 24 casas vinícolas, onde dá orientação técnica e elabora todos os vinhos.
Algumas são ainda hoje embrionárias, outras são verdadeiros monstros sagrados, como a Herdade do Mouchão.
Afora a competência como profissional de enologia, Paulo tem didática de professor dedicado, explica tudo, com riqueza de detalhes, e tem paciência incomum em sanar dúvidas e estimular que o interlocutor descubra as maravilhas de seus vinhos, através de sua sensibilidade pessoal.
Recentemente, em uma de suas visitas a São Paulo, participamos de uma prova vertical de Mouchão, numa reunião da seção brasileira da Confraria dos Enófilos do Alentejo.
O leitor que me acompanha, deve lembrar-se que há alguns anos, escrevi aqui um artigo sobre “o segundo melhor vinho que provei em minha vida”, um Mouchão tonéis 3 e 4. O primeiro continua sendo o Barca Velha Magnum 1966, degustado com Fernando Nicolau de Almeida.
Fui para a prova, realizada em almoço no restaurante Antiquarius, em São Paulo, com o coração palpitando, pois imaginava o que iria encontrar.
Da saborosa bateria constavam os seguintes anos: 1979, 1984, 1993, 1996, 1998, 1999 e 2000. Seria até muito fácil dar nota dez a todos os vinhos se o de 1996 não tivesse se destacado tanto.
O Mouchão nasce de um bom corte de Alicante Bouschet e de Trincadeira, com proporções variadas a cada ano, de acordo com o comportamento da casta. O ano de 1996 foi particular, pois o vinho foi elaborado 100% com a Alicante Bouschet.
Todas as amostras portaram-se acima da média de qualidade de um vinho alentejano. Corpo, aromas diversos, todos intensos de alta qualidade, retrogosto e retro-olfato marcantes foram uma constante. O Mouchão 2000, por ser jovem, com aromas e sabores pujantes a frutas e forte característica vegetal, foi o parceiro ideal da açorda de bacalhau servida, em que os coentros pensaram que iriam reinar sozinhos, mas se enganaram. Um casamento perfeito.
Surpresa foi o Mouchão de 1979, com ainda muito a evoluir, ou seja, o tempo para esse vinho é um mero detalhe. O Mouchão 1993, vinho muito complexo, foi o par ideal do arroz de pato.
Para se entender o Mouchão, deve-se voltar no tempo até por volta de 1825, quando a família Reynolds estabeleceu-se em Portugal, originária da Inglaterra.
Pacientes, até hoje deixaram que o tempo fosse o professor. Não saíram correndo atrás da fortuna, mas buscaram sempre a mais alta qualidade, com simplicidade.
O terroir do Mouchão é único no Alentejo. Muito sol e solo extremamente permeável fazem o habitat ideal para a cultura da Alicante Bouschet, tão detestada em sua terra natal, a França.
Sem ligar para os modismos, o rótulo do Mouchão é sóbrio e tradicional, assim como o vinho que aposta na mesma receita há mais de 100 anosl
Como conclusão, posso afirmar que apostar no Mouchão é ganhar sempre. Nesse caso, o bigode emblemático de Paulo Laureano é um grande sinal de sabedoria.
Artigo publicado na revista Vinho Magazine – nº62, ano 6, junho/2005
Saudações Vinícolas!
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