Uma excelente prova de vinhos do Douro
No último dia 28 de abril, a convite do IVDP – Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, dirigi uma prova de vinhos do Douro para jornalistas e enófilos convidados, nos salões do Hotel Unique, em São Paulo.
Depois do repentino, e felizmente contínuo sucesso dos vinhos do Alentejo, em todo o mundo, os Vinhos do Douro vivem um momento igual. Há séculos que se produzem vinhos maduros nesta centenária região produtora de vinhos de Portugal, onde o vinho do Porto reina absoluto, mas o Vinho do Porto lhe roubava as glórias.
Foi só á partir da década de 50 do século XX, que os vinhos maduros do Douro começaram a ser elaborados visando a atender ao gosto internacional, saindo assim da produção artesanal, que matava a sede dos do povo Dorense. É dessa época que o então enólogo da Casa Ferreirinha Fernando Moreira Paes Nicolau de Almeida apelidado pelo pessoal do Douro de “cheirista”, apresenta ao mundo o seu mítico, Barca Velha. Este vinho reinou absoluto no mundo dos vinhos tintos do Douro até o início do século XXI.
Agora, uma centena de rótulos de vinhos tintos, brancos e até espumantes produzidos no Douro alegram os nossos corações.
Que a região do Douro produz excelentes tintos, isto muita gente já sabia, e quem foi o primeiro a falar sobre este assunto foi o célebre Barão Joseph James Forrester, lá pelos idos de 1840.
Foi uma necessidade comercial recente que fez com que os tradicionais produtores de Vinho do Porto passassem a dar mais atenção ao potencial que a região tem em elaborar vinhos maduros de alta qualidade, pois o mercado de vinho do Porto, luta bravamente para manter seus números, diante de uma grande concorrência com o surgimento de novos vinhos e outras bebidas mais fortes no mundo dos destilados.
A prova que realizamos, só veio a firmar em definitivo, que em muito breve, os vinhos maduros do Douro receberão do mercado internacional o título de melhores tintos das terras lusitanas.
A seleção de vinhos degustados foi primorosa, o que mais chamou a atenção de todos é que nenhum dos 15 vinhos degustados apresentou um mínimo defeito que colocasse sua qualidade em discussão. Pareceu uma prova entre amigos, todos os vinhos apresentaram qualidades superiores e seus taninos maduros encantaram à todos os presentes.
Começamos degustando o espumante Vértice Reserva 2005, uma bem elaborada mescla das uvas Códega, Gouveio, Malvasia Fina, Rabigato, Touriga Franca, esta em maioria com 30% do blend, e a Viosinho. Todas as principais características positivas de um espumantes se encontravam presentes, chamando atenção o leve aroma de pão tostado, tão típico em espumantes mais velhos e bem nascidos.
Em seguida foram degustadas algumas garrafas do Redoma Reserva Branco 2006, incontestavelmente o melhor vinho branco de Portugal, até o momento. Nascido pelas mãos do amigo e Confrade Dirk Niepoort, que ao longo do tempo tem se mostrado como um dos mais brilhantes criadores de vinhos do Douro, este vinho tem origem em cepas com mais de 60 anos de cultivo, e esta maravilha é um blend de Rabigato, Codega, Donzelinho, Viosinho e Arinto. Tem maturação de 8 meses em carvalho, fato que ajuda em muito a torná-lo resistente, pois este é um caso raro de branco de Portugal que chega fácil aos 10 anos sem perder a qualidade. Vinho completo, que preenche a boca e ainda deixa muita saudade após a degustação, seu retrogosto é espetacular.
Seguiram-se a degustação dos outros 13 vinhos tintos reservados para essa ocasião.
Começamos com o Post-Scriptum 2006, da bem sucedida parceria Prats & Symington, tradicional e muito antiga família inglesa produtora de afamadas marcas de vinho do Porto.
Este vinho é o resultado de um harmonioso casamento das 3 cepas tintas mais emblemáticas do Douro, a Touriga Nacional, a Touriga Franca e a Tinta Roriz. Com 13,5% de álcool, quase não se sente este volume, devido à maciez que o vinho tem. Taninos firmes, mas suaves, e uma presença no olfato muito agradável. A parceria entre a família Prats de Bordeaux, que produz o não menos lendário Cos d’Estournel em Saint-Estèphe e os Symington, que já são uma lenda no setor do Vinho do Porto, não podia ser melhor, o resultado foi excepcional.
Uma novidade chamada Bons Anos, um Douro tinto de 2006, produzido pela Quinta das Hidrângeas e importado pela Magna Import, surpreendeu a todos pela exuberante qualidade.
Um harmonioso casamento entre as castas Touriga Franca, Tinta Roriz e Touriga Nacional, com uma potência de 14% vol, que no início da prova se torna imperceptível, agradou a todos os presentes, pois o vinho apresentou-se harmônico e com taninos suaves, o que lhe facilitava a prova.
Seguiu-se a prova com o Quinta do Cachão Touriga Nacional 2006 das Caves Messias. Vi o nascimento deste rótulo há passados 10 anos, quando a família Messias começou a produzir seus tintos maduros no Douro, onde já por muitas décadas produz seus afamados Vinho do Porto. Um verdadeiro “torpedo”, pois este vinho tem 15% de álcool. As framboesas maduras e ameixas pretas estão presentes fortemente nos aromas deste vinho, embora tenha só 6 meses de estágio em carvalho, toques leves e delicados de baunilha se fazem sentir. Uma ousadia da casa, pois este mono vinho da casta de Touriga Nacional veio para se firmar como vinho emblemático da Casa Messias.
Sandra Tavares e Cristiano Van Zeller assinam a próxima obra de arte, trata-se do vinho Quinta do Vale Dona Maria, já bastante aclamado como o melhor vinho tinto do Douro, depois do mítico Barca Velha. Cristiano Van Zeller faz parte do grupo de jovens apelidados de “Douros Boys” que fizeram uma revolução em termos de vinhos de mesa na região do Douro.
Uma grande representação da vitivinicultura típica do Douro está presente neste vinho, nada menos que 7 uvas estão na sua composição, são elas: Tinta Amarela, Rufete, Tinta Barroca, Tinta Roriz, Touriga Francesa, Touriga Nacional e Sousão. Este vinho passa 2 anos em barricas de carvalho, e tem uma cor rubi intenso e profundo. Seu retrogosto é longo, persiste e é muito agradável. Trata-se de um vinho que pode ser degustado com estas mesmas qualidades daqui a 20 anos.
O “pequeno” grande produtor do Douro Domingos Alves de Sousa enviou o seu vinho, não menos famoso, o Quinta da Gaivosa Vinha de Lordelo 2005. Com uma produção de apenas 3.500 garrafas, que tiveram sua origem em uma propriedade de apenas 2,5 ha, onde ainda existem vinhas com mais de 100 anos. Domingos informa que a base principal de seu vinho são as uvas Tinta Amarela, Sousa e Touriga Nacional e “outras”, estas outras como sabemos, fazem parte dos vinhedos antigos tradicionais do Douro, onde uma mescla de cepas eram cultivadas todas juntas. Este vinho tem 15,5% de álcool,o que o torna incomum no mundo dos vinhos tintos maduros, seus taninos são doces e macios , o estágio em barricas nova de carvalho francês é de 15 meses, e sua prova provoca um certo prazer, satisfação, logo interrompido pelo elevado grau alcoólico. Seguramente este é um vinho, longevo, pois resistirá facilmente, preservando suas qualidades por mais de 30 anos!
O mítico vinho Pintas seguiu a prova. Esta obra de arte da lavra de Dirk Niepoort, recebeu todos os louros dourados das maiores autoridades em pontuação de vinhos de todo o mundo. Trata-se de uma unanimidade. Sem medo de errar, o rótulo informa que este vinho foi elaborado com Touriga Franca, Tinta Amarela e outras ”27 castas”, que harmonicamente dão origem a esta jóia da vitivinicultura portuguesa. Pisa a pé em lagares de granito e estágio de 18 meses em barricas de carvalho francês, com uvas cultivadas há passados 70 anos são os pontos chaves para obtenção desta jóia. Toda essa maravilha vem de um pequeno vinhedo de 2 ha localizado na região do Pinhão, no Alto Douro.
O vinho Vértice Grande Reserva Tinto 2006 apresentou-se com 14,5% de álcool, e tem o destaque para aromas que lembram especiarias. Tem uma produção de apenas 8.000 garrafas e se apresenta na boca como um vinho rico, pujante, mas sem se deixar destacar e surpreender pelos seus taninos macios.
Da emblemática e desejada Quinta do Noval veio para a prova o seu Douro DOC 2005. Elegante vinho elaborado pelo Rei dos Vintages, António Agrellos, este Noval tem um corte de 40% de Touriga Nacional, 50% de Touriga Franca e 10% de Tinto Cão. Não foi nenhuma novidade que dos mais belos terraços do Douro surgisse este maravilhoso vinho, rico em aromas e de um paladar memorável. Uma complexidade na boca, que logo deixa saudades!
No conjunto de vinhos degustados, onde todos apresentaram qualidades superiores, um haveria de se destacar, e foi o Quinta do Crasto Vinhas Velhas 2006. Oriundo de cepas com mais de 70 anos de cultivo, este potente vinho de 14,5% de álcool deixou todos os degustadores perplexos. Esgotaram-se os adjetivos, foi melhor ficar quieto do que buscar palavras para descrevê-lo afinal estava-se diante de uma perfeição e perfeição não se comenta, admira- se e goza-se o momento! A topografia íngreme desta Quinta, aliada aos cuidados quase individuais que cada pé de uva recebe, só podia acabar nesta magistral obra de arte. Degustar este vinho é dar um bom presente a alma!
O Quinta Nova Reserva Tinto 2005, tem sua origem na famosa Quinta Nova de Nossa senhora do Carmo, hoje pertencente à Casa Burmester, mas que em tempos passados, por herdade, pertenceu aos herdeiros da Coroa de Portugal, os Duques de Bragança. Com uma produção de apenas 12.000 garrafas, este vinho de 14,0% teve uma maceração prolongada por 7 dias, tendo depois estagiado por 16 meses em barricas de carvalho novo, todas oriundas da França. O enólogo Francisco Montenegro foi competente e dar a este vinho o que ele merece, tempo para estar pronto para vir ao mercado. Vinho rico, robusto, elegante e com taninos macios, é um grande companheiro de um cordeiro assado ou até um bom arroz de pato, típico do Douro.
As surpresas não parariam por aí. Tínhamos ainda o Quinta das Tecedeiras Reserva Tinto 2005 para provar. Qualquer adjetivo seria pouco para descrever este caldo rico do Douro. Um grande vinho, ou melhor, um senhor vinho, destinado a poucos apreciadores que buscam vinhos vivos, robustos, mas educados, elegantes e finos. Todos estes adjetivos qualificativos são poucos para descrever esta agradável surpresa.
Seguiu-se a prova com o CARM Grande reserva 2005, produzido pela Casa Familiar Roboredo Madeira, que desde o século XVII se ocupa com vinhos.
Um clássico do Douro com Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, com 14% de álcool, este vinho tem aromas pronunciados de frutas vermelhas maduras e toques florais que lembram a Esteva, flor típica do Douro. Com 12 meses de carvalho e mais 6 meses de estágio em garrafa, antes de ir para o mercado.
A prova foi encerrada com a degustação do Evel Grande Reserva Tinto 2006.
Emblemático vinho, um dos primeiros vinhos maduros do Douro a serem elaborados, que fez sua entrada no mercado ainda na década de 70 do século passado, este vinho só tem evoluído a cada ano. Atingiu um patamar de qualidade invejável. Destacou-se dentre todos os provados, por ter um álcool de 12,8%, ou seja, vinho ao estilo mias normal que estávamos acostumados a encontrar. Oriundo de um elaborado corte de Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz e Tinto Cão, este vinho nasce no Pinhão, no Alto Douro e estagia por 18 meses em barricas de carvalho. Vinho complexo e extremamente agradável à boca e ao paladar.
No conjunto geral, foi uma mostra adulta e inteligente, pois deixou todos os 40 provadores perplexos e acuados quanto as suas considerações, pois não havia defeito em nenhum vinho, fato que obriga a todos a por a cabeça a pensar, uma vez que qualificar e destacar defeitos é muito mais fácil que aceitar virtudes, e prestar honras a elas.
São ações como estas que engrandecem os serviços do IVDP, são provas incontestes da qualidade de uma região centenária, que se redescobre a cada dia.
Caro Amigo
Eu tambem estive nessa prova organizada pelo IVDP e o espumante que tambem foi degustado no inicio foi o Dona Leonor Reserva Bruto 2003
e que esgotou logo de seguida,uma vez que muitos dos presentes queriam repeti-lo,incuindo eu, e ja nao foi possivel. Penso que foi uma agradavel supresa para todos e que merecia ser comentado.
Um seu admirador que aproveita para lhe agradecer o bem que tem feito pelos vinhos do DOURO.
Um Abraço
Antonio Carlos
Fiquei bastante interessada em experimentar este espumante…afinal, o mesmo tem o meu nome. Tem uma indicação de um local onde eu possa comprar?
Pela atenção, obrigada!
Dona Leonor,
Peço desculpa por só agora responder ao seu comentario.
O referido espumante pode ser encontrado em São Paulo, na Empresa BAID`NHER.
Av. Santo Amaro, 811- CJ. 16
Moema SAO PAULO
Telefone 11 3846 8439
celular 11 9943 5552
NOTA: Existe também vinho tinto do DOURO com o mesmo nome.
Com os cumprimentos,
Antonio Carlos
Cara senhora,
O espumante em questão é o Dona Leonor, que é produzido pela Soc. Agrícola Quinta Dona Leonor, o seu proprietário é o Senhor António Magalhães, e o seu e-mail é : tecnovini(arroba)clix.pt, lamento não lembrar quem é o importador no Brasil.
Grato,
Carlos Cabral
Prezado Carlos,
Primeiro, agradeço. Sou seu leitor e tenho aprendido muito do Porto com a leitura de seus escritos. O livro (o Porto e sua imagem) é magnífico.
Pergunto, agora, se saberia onde comprar no Brasil (visto que o frete torna o preço gravoso) as taças oficiais do vinho do porto (as projetadas por Álvaro Siza). att.
Cláudio Pinto
Caro Claudio,
Não, no Brasil não existem tais taças. Peça ao IVDP (http://www.ivdp.pt), que lhe envie as taças, eles têm embalagens de isopor para fretes aéreos e o preço é barato do frete, pois não chega a 2 kg.
Grato,
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Carlos Cabral
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