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Viagem ao Vale São Francisco

19 dezembro 2008 | por Carlos Cabral | 1 Comentário

Passados 18 anos, retornei ao Vale do rio São Francisco para ver e sentir o que está sendo feito por aquelas bandas deste vasto Brasil. Foi em 1990 que fui conhecer a Fazenda Gabriela, um grande projeto da Família Pérsico Pizamiglio, para o cultivo de uvas viníferas e não viníferas, em Santa Maria da Boa Vista, Pernambuco. Desse projeto surgiu o vinho Boticelli, uma homenagem de Franco Pérsico a um conterrâneo ilustre.

Naquela altura, com muita emoção vi a irrigação sendo realizada com as águas do Rio São Francisco, o nosso velho querido Chico. Tudo era verde de um lado e seco e triste de outro, mas com a vontade e tenacidade, e porque não dizer, uma alta dose de teimosia, todo o cenário poderia ser mudado, e foi.

No último dia 6 de dezembro, juntamente com uma parte da Equipe de Atendentes de Vinhos do Grupo Pão de Açúcar, fui visitar dois novos projetos que não conhecia, a VINIBRASIL e a FAZENDA OURO VERDE. O primeiro trata-se de um mega projeto de um grande grupo produtor de vinhos de Portugal, a DÃOSUL, que possui na região 2.000 ha de terra para este projeto. Hoje tem 200 ha cultivados e está preparando o cultivo de mais 200 ha para breve. Ao custo de R$ 50.000,00 o hectare cultivado, o projeto já é auto-suficiente no que diz respeito à seleção de videiras, pois conta com um gigantesco viveiro de mudas, todas selecionadas por clones específicos, além de ter um grande campo de provas, onde diversos clones de um mesmo varietal são testados com 7 tipos diferentes de porta enxertos.

É deste campo experimental que as decisões de cultivo de novos hectares são tomadas, assim o risco de erro chega próximo ao zero. Com este espetacular campo de provas, pode-se fazer os mais variados testes, como está ocorrendo no momento. Até a uva típica da Hungria, que dá origem ao lendário Tokay, está sendo cultivada experimentalmente. Uma grande coleção das mais famosas castas portuguesas, além das clássicas e tradicionais castas francesas, até a magnífica Moscatel de diversas origens está lá dando o ar de suas graças!

Impressionante são as qualidades tintureiras das castas Syrah e Alicante Bouschet, que nascem neste local, são retintas, cor anteriormente só vista nas tradicionais castas tintas da região dos Vinhos Verdes. Quase que como uma obra de um mago, percorrendo 4 ha de vinhedos contíguos encontramos a videira nos estágios de Primavera, Verão, Outono e Inverno, tudo ao mesmo tempo. Só neste canto do planeta isto é possível. Controlando-se rigorosamente a irrigação, pode-se deixar a videira em repouso ou despertá-la para a produção. O solo é fértil e a floração é abundante, tanto que se fazem necessárias algumas podas verdes durante a floração. As temperaturas que facilmente chegam próximas dos 40 °C durante o dia e 20 ºC à noite garantem a amplitude térmica, evento tão importante para a nutrição das folhas e que ocorre naturalmente, e favorecem uma perfeita fotossíntese.

No momento, todos os vinhos produzidos são destinados a consumo médio de tempo, ou seja, não são vinhos de guarda, mas a VINIBRASIL irá construir em breve, uma nova Planta de Vinificação, com um imenso subsolo, onde serão armazenadas milhares de barricas de carvalho para a produção de vinhos reservas e Premium.

Provei o Syrah 2007, Tempranillo 2008, Alicante Bouschet 2008, Chenin Blanc, com 15 dias de fermentação e muitos outros. Todos apresentavam cor correta e aromas frutados bem pujantes. A marca líder da empresa, a RIOSOL já está presente em 22 países, e a coleção de prêmios nacionais e internacionais já começou em 2006, e não tem parado. De tudo o que vi e senti, o que mais me impressionou foi o entusiasmo e a didática do Agrônomo João Santos, que veio de Portugal, se instalou com a família, esposa e 4 filhos, e já se parece com um brasileiro típico. Seu entusiasmo pelo campo e a cultura da vinha é contagiante, quem o vê no meio dos vinhedos, sente que o João conversa com as videiras, conhece uma a uma e sabe detectar com um olhar qual planta necessita de mais atenção. Para tocar o projeto no Brasil, foi escolhido o húngaro Tibor Sotkovszki, CEO da DÃOSUL, que vindo das terras do frio adaptou-se muito bem aos dois climas, ao de São Paulo e ao do Vale do São Francisco.

Seguindo a viagem, fomos para a Fazenda Ouro Verde, já do outro lado do Rio São Francisco, na localidade de Casa Nova, no bairro de Santana do Sobrado, Estado da Bahia. Neste local, há passados 30 anos, o imigrante japonês Mamuro Yamamoto, pioneiro no cultivo de uvas no Vale do Rio São Francisco, implantou a Fazenda Ouro Verde, um projeto visionário para a época. O Grupo MIOLO, do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul, adquiriu a propriedade de 700 ha e hoje mantém cultivado, 150 ha de vinhedos de vitis viníferas, dentro do projeto de cultivar 400 ha até o ano de 2012. No momento estão em franca produção os varietais Shiraz, Cabernet Sauvignon, Tempranillo, Chenin Blanc, Verdejo, Sauvignon Blanc e Moscatéis. É projeto da empresa produzir até 2012, 10 milhões de litros de vinho por ano.

Para chegar até este número histórico a Ouro Verde construiu uma enorme cantina, que foi inaugurada em outubro passado e também implantou uma rica sala de degustação e show room, para atender ao enoturismo que está em franca expansão na região. O enólogo responsável pela elaboração dos vinhos é o premiado Adriano Miolo, que como diretor técnico do Grupo, contratou a assessoria do afamado enólogo francês Michel Roland. Adriano é também um entusiasta pelos vinhos do São Francisco. De seu trabalho surgiram vinhos que hoje já são ícones dentro do mercado brasileiro, como o Reserve Late Harvest Moscatel Terranova, um vinho com pronunciados aromas de damasco e mel, e o Espumante Terranova, campeão de vendas da empresa, que só neste 2008 já vendeu 1 milhão de garrafas! O vinho ícone é um Reserve Cabernet Sauvignon/Shiraz, vinho envelhecido em barricas e com grande longevidade. Na propriedade também se produz o afamado Brandy Osborne, que a centenária Casa espanhola de Jerez de La Frontera resolveu produzir no Brasil, acreditando no potencial da região. Uma completa destilaria está instalada no local. Aqui também a Miolo mantém um viveiro de mudas, todas aclimatadas na região, que irão formar os futuros parreirais que estão sendo implantados.

Agora, voltarei a agosto de 1980, quando a revista Senhor publicou uma entrevista feita comigo, motivada pela recém fundação da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, em julho daquele ano. Em dado momento, o jornalista me perguntou qual seria o futuro do vinho brasileiro. Citei que o nordeste do Brasil seria o celeiro de grandes vinhos, era só ter paciência e esperar um pouco. Quase fui linchado, recebi críticas de gente poderosa e algumas até de extremado mau gosto. Fui chamado de sonhador, e a então “elite do vinho” passou a me hostilizar.

O tempo passou, e sem querer ser visionário, hoje vejo que eu tinha razão. Quem ganhou com isso tudo foi o consumidor brasileiro. Agora podemos escolher vinhos em diversos quadrantes de nosso território. Uma coisa é certa, os vinhos do Vale do Rio São Francisco vão dar muito que falar. Quem viver verá!

1 Comentário »

  • Vera Lucia Gomes de Matos disse:

    Caro Senhor,

    gostaria de saber como conseguir mudas de videiras resistentes às doenças e temperaturas altas do Vale do São Francisco.
    Grata por retorno.
    Tudo de bom.
    Vera Lucia Gomes de Matos

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