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Vinho madeira, o retorno

14 outubro 2008 | por Carlos Cabral | Seja o primeiro a comentar

Verdade seja dita. No Brasil, nos últimos 30 anos, nada se fez pelo vinho Madeira. Em uma ação isolada, e por puro nacionalismo, o saudoso empresário da área de supermercados Manuel da Silva Sé importava para suas lojas uma completa linha de vinhos Madeira comuns e alguns superiores. Manuel Sé, madeirense, orgulhoso de sua origem, chegou a vender por muito tempo esses vinhos com margem ínfima de lucro; gostava de ver seus Madeiras bem expostos em suas lojas e chegou a vender 12 mil garrafas deles por ano. O tempo passou, o sr. Sé se foi, e o vinho Madeira caiu no esquecimento no Brasil.

Meu primeiro contato direto com esse vinho foi em outubro de 1982. Minha tia, Maria ]ulia de Mendonça, jornalista e empresária, viveu mais de 50 anos na Ilha da Madeira, vinda da Vila do Nordeste, na Ilha de São Miguel dos Açores.

Fundou e dirigiu um dos primeiros jornais da Madeira, “O Eco do Funchal”. Foi proprietária de quatro restaurantes, todos perdidos de maneira xenófoba após o dia 25 de abril.

Ao visitá-la, em 1982, ela levou-me para conhecer a Barbeito, antiga casa produtora de vinhos da Madeira; conheci toda a ilha e consegui uma entrevista na rádio local, no Funchal, onde, por uma hora, respondi perguntas sobre a fascinante história do vinho Madeira.

À noite, em sua casa, em uma ambiente de paz, admirando sua rica coleção de moedas antigas, tia Maria tirava de um armário garrafàs antigas de Madeira, como um Terrantez 1865, um Malvasia 1904, um Sercial de 1945, entre outros. Todos degustados com o autêntico bolo de mel. Questionei que eram muitos e que talvez não conseguisse provar todos. Então a resposta foi: “Não sei quando o terei de volta aqui para degustarmos essas iguarias”. Tinha razão; nunca voltei.

O Madeira é um vinho místico, foi até confundido com perfume graças a seus aromas. Os ingleses pagavam o dobro do preço pelo Madeira que tivesse ido até às Índias e voltado nos porões dos navios que, ao margearem a costa da África, singravam águas mornas, o que acabou provocando a célebre “estufagem”, até hoje utilizada. Esses vinhos receberam dois nomes curiosos, o Toma-Viagem e o Roda-da-Índia.

Como não poderia deixar de ser, os ingleses também “meteram a colher” no Madeira. Há, até hoje, uma colônia de ingleses resistentes que tem clube, igreja e escola in “British System”. Claro que os ingleses também estão no negócio do vinho, a Casa Madeira Wine Company, que pertence à família Symington, do vinho do Porto, elabora hoje um milhão de litros por ano.
A Madeira foi a última região de Portugal a deixar de vender vinho a granel, prática que nem sempre foi confiável do lado de quem engarrafava o vinho. Tecnologicamente falando, a Madeira está muito atrasada. A prática da “estufagem” (aquecer o vinho a 40 graus para envelhecê-Io precocemente) ainda é utilizada.

Um ex-militar português com longa folha de serviços na África assumiu os negócios da ]ustino’ s Henriques. Processa hoje quase dois milhões de litros de vinho e não tem vergonha de dizer que 85% do vinho produzido na ilha é oriundo de uma casta chamada Negra Mole, deixando na saudade aqueles antigos Madeiras de Bual, Verdelho, Malvasia e Sercial, sem falarmos no místico Terrantez.

Os vinhos da Justino’s Henriques estão com toda força no Brasil; já começam a freqüentar lojas especializadas e supermercados. Vieram se juntar aos requintados Blandy que por aqui estão há cinco anos, mas com venda só por catálogos.

Recentemente provei -quero dizer, tomei, porque a garrafa logo esvaziou- o ]ustino’ s Malmsey 10 Years Old. Rico na cor e nos aromas, é uma grande explosão de especiarias no nariz e aquece o coração com seus 19 graus de álcool.

Vendo esse trabalho com o Madeira, dá-nos ânimo de citar que ele está voltando. Pois que venha e fique para alegrar os nossos corações nesses tempos de política amarga. Afinal, o Madeira Malvasia é doce, e bem doce!

Artigo publicado na Revista Vinho Magazine – nº 31, ano 4, 2002

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