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Vinho: um prazer individual que não pode ser imposto

9 março 2010 | por Carlos Cabral | 7 Comentários

Tenho vivido boas e memoráveis experiências com vinho nesses últimos 40 anos em que resolvi me dedicar ao estudo deste néctar dos Deuses. Mas, como em tudo na vida, o caminho não é só feito de flores. Temos também alguns momentos de “phyloxera” constantemente por perto, rondando.

Sempre defendi o prazer de degustar um vinho, seja ele qual for, e sempre fui contra os que usam do expediente de preços, de notas, de conhecimento enlatado, de alpinismo social etc. Com o milagre econômico que estamos vivendo, felizmente muitos novos consumidores estão tendo acesso ao vinho, mas esses mesmos consumidores estão sendo bombardeados por informações muitas vezes equivocadas, fazendo esse jovem consumidor ter que se decidir por rótulos de prestígio duvidoso, preços inadequados e/ou imposição de gosto e estilo. Poucos são aqueles que entram neste mundo e buscam somente o prazer.

A cada dia, mais me convenço que o vinho existe para ser o agente da sociabilidade. O vinho tem esse papel e só a esse fim é que se presta unir as pessoas em torno de uma mesa e ajudar na conversa. Cor, aroma e sabor são detalhes, tão naturais como se alimentar da comida de nossa casa. O vinho, quando usado como veículo de esnobismo, costuma cobrar um preço alto, pois nem sempre quem o prova julga tudo aquilo como quem o oferece. Aí fica aquele hiato desagradável porque, como diz a máxima, “gosto não se discute”! Lembrem-se: quem dá o que tem, mais não é preciso!

Comprar vinhos caros é fácil, merecê-los é outra coisa muito distante. Querer impor gosto e fazer da prova uma demonstração de poder também é fácil, já adquirir o respeito e a unanimidade é bem mais difícil.

O vinho deve fluir naturalmente. Jamais devemos esquecer que a qualidade maior de uma degustação é exatamente o momento em que estamos realizando a prova – a situação que estamos vivendo (se é uma comemoração ou não) e fundamentalmente a companhia que está conosco. Acredito que o melhor vinho do mundo é aquele que degustamos na companhia de quem amamos. Não vai aqui nenhuma declaração melodramática, mas uma constatação exercitada nos últimos 40 anos!

Tenho cruzado com consumidores iniciantes, que acabaram de fazer algumas aulas sobre vinhos e que já começam a ditar regras, julgando-se “conhecedores”. O conhecimento do vinho, como tudo na vida, não é uma “reserva de mercado”, mas este conhecimento, como qualquer outro, requer dedicação, paciência e tempo. Prefiro as descrições pessoais, repletas de emoções e de detalhes curiosos às frases cunhadas sobre aromas, cores, sabores e sei lá mais o que. A maioria dos enólogos do mundo que não buscam o “estrelismo” também não gosta deste rebuscado linguajar para definir duas coisas essenciais na vida, que são: gostei ou não gostei. É tudo tão simples, por que complicar?

Recomendo a todos que tomem seus vinhos pelo simples prazer de tomar, dividam suas taças, reúnam os amigos e as pessoas queridas, celebrem a vida, e se afastem dos esnobismos e das idéias pré-concebidas. Com certeza esse vinho lhe cairá muito melhor, e fará um grande bem a sua alma!

7 Comentários »

  • Roberto disse:

    Concordo em gênero, número e grau!!!!! belíssimo texto

  • Lander P. Santos disse:

    Saudações vinícolas meu caro mestre!

    Faz pouco tempo que eu entrei nessa estrada cheia de aromas e sabores do vinho, tendo como exemplo o Mestre Carlos Cabral, que me ensinou o jeito simples de se beber um vinho, seja ele o de meu gosto ou não, tendo como papel principal a união que essa garrafa promove. Portanto, meu querido professor, concordo contigo em grau, gênero e número. Quase todo dia eu atendo alguns “enochatos”. A primeira pergunta que me fazem é : “Quantos pontos esse vinho teve na Wine Spectator?” Não seria melhor perguntar se o tal vinho iria agradar ao paladar do mesmo? Sei lá, se quer pontuação, compra a revista e mastiga a página dos top 10 que lá tem mais pontuação do que qualquer garrafa de vinho. Cabral, um abração e muitas taças de vinhos p/ vc e sua família. Lander

  • Rafael Spatti disse:

    Meu caro Cabral, como vai?

    Quando li este seu artigo, vi você nos auditórios do Pão de Açúcar dando aula a nós, aspirantes a atendentes de vinhos. Relembrei várias passagens e história passadas pelo Sr. e que até hoje estão frescas minha memória e muita saudade tenho.
    Eu tento diariamente passar toda essa sabedoria adquirida por essa fantástica experiência que tive em aprender uma profissão sobre vinho com o Sr., a minha família, amigos e clientes. Conforme infomei ao Sr. por e-mail há algumas semanas, estou montando um cursinho para pessoas que estão interessadas em mergulhar nesse maravilhoso assunto que é o vinho e este artigo me deu uma boa base de como passar todas as informações necessárias para atrair novos amantes de bons vinhos.
    Muito obrigado mais uma vez, meu Mestre.

    Rafael Spatti

  • Carlos Cabral (author) disse:

    Caro Rafael,

    Vá em frente e conte sempre comigo, se quiser traga o teu projeto para eu ver, e então trocamos mais ideias.

    É isso aí, siga sempre em frente, grande abraço,

  • Carlos Cabral (author) disse:

    Lander amigo,

    Sugira a estes clientes, provar o vinho e dar a sua nota, assim é melhor.

    É um trabalho árduo este de fazer as pessoas se valorizarem, mas não devemos desistir jamais!!!

    Abraços,

  • Roberto Dotta disse:

    Caro Mestre Carlos Cabral,
    Saudações Vinícolas !
    Estou com uma representação de vinhos portugueses, e preciso montar uma boa equipe de vendas que vai atender o mercado da grande São Paulo e gostaria que o Mestre me orientasse onde e como posso encontrá-los .
    Nosso alvo são os supermercados , lojas de vinhos, restaurantes,e outros negócios especializados em vinhos.
    Agradeço desde já a orientação.
    Abraços

    Roberto

  • Carlos Cabral (author) disse:

    Caro Roberto,

    Procure primeiro na ABS ( Ass. Brasileira de Sommeliers), eles tem muitos alunos principiantes que gostam de vinhos e querem entrar para o mercado

    Abraços,
    Carlos Cabral

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