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Vinum brasilis

18 agosto 2009 | por Carlos Cabral | Seja o primeiro a comentar

No final do ano de 1499, uma Lisboa cosmopolita assistia ao burburinho da preparação de uma esquadra bastante grande para a época, que acabaria zarpando em 9 de março de 1500 com destino à Índia – e só retornaria a Lisboa em 23 de julho de 1501. No comando, Pedro Álvares Cabral, o almirante que entraria para a história por ter “achado” o Brasil. A esquadra era composta de 13 navios, sendo um deles uma “barca de mantimentos” comandada por Gaspar de Lemos. Era nessa barca que estavam armazenadas diversas pipas de um vinho tinto adquirido no Alentejo, em uma propriedade próxima de Évora, de nome Pêra Manca, vinho que até hoje faz sucesso e é um dos orgulhos dos alentejanos.

A presença do vinho nessa empreitada era importante por três motivos: para ajudar a higienizar os alimentos servidos a bordo durante os longos dias de viagem; por ser matéria-prima fundamental para que os oito frades católicos que estavam distribuídos pelos barcos pudessem celebrar as missas diariamente; e, o terceiro e mais importante motivo, para manter o nível da tropa elevado, pois um copo de vinho àquela altura do empreendimento era um reconfortante prêmio.

Quando Afonso Lopes trouxe a bordo da Nau Capitânia dois índios para que conhecessem o comandante, ofereceram a esses nativos diversas iguarias, dentre elas o vinho. A reação foi mais que espontânea: os indígenas cuspiram a bebida que não lhes agradara nem um pouco.

Foi assim a primeira experiência de um brasileiro com o vinho. Não que a bebida não fossse boa. É que ela em nada se parecia com o vinho elaborado pelos gentios: o cauim, um fermentado de mandioca que muita dor de cabeça deu aos jesuítas que tentavam impor a religião católica aos índios.

Os tupinambás, que habitavam o litoral da Bahia, eram craques na elaboração dessa beebida, que até hoje desperta interesse e tem lendas em torno de sua elaboração. Duas boas descrições sobre o uso e os efeitos do cauim são narrradas pelo padre Fernão Cardim em sua obra Tratados da Terra e Gente do Brasil, e pelo explorador e naturalista alemão Hans Staden. O padre Cardim cita que “o canto, a dança e o vinho (cauim) permeavam toda a vida tupinambá”. Staden descreve em seu livro Viagens e Aventuras no Brasil, publicado em 1557 em Marburgo, região da Alemanha de hoje, todo o processo de elaboração da bebida. Diz ele:

“São as mulheres que a preparam, usam raízes de mandioca e cozem-nas em grandes panelas. Quando está cozida, retiram a mandioca da panela, despejam-na em outras panelas e deixam que esfrie um pouco; a seguir, meninas sentam-se ao redor e a mastigam; colocam o mastigaado num vaso especial”. De volta às panelas, estas eram enterradas para dois dias de fermenntação. O cauim, segundo o padre Cardim, era bebido em nascimento de crianças, na festa do primeiro fluxo menstrual de uma cunhã, na recepção a hóspedes, em véspera de batalhas, no primeiro casamento do mancebo, após o trabalho comunitário na ruça, no ritual antropofágico, ao fim do período de luto pela morte de um parente etc.

Antonio Risério, em seu completíssimo livro Uma História da Cidade da Bahia, diz que “era uma fantasia europeia a ideia de que virgens mascavam as raízes, no preparo do cauim. Não havia virgens. Antes de privilegiar a virgindade, os tupinambás praticavam uma espécie de adestramento, uma didática erótica que introduzia pré-adolescentes, crias ainda púberes, nos prazeres do sexo”. As índias jovens mastigavam a mandioca porque, como não haviam gerado filhos, ainda tinham todos os dentes. Assim, essse “Vinum brasilis” fez sua história.

*Texto publicado na revista Prazeres da Mesa em abril de 2009, nº69

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